sábado, fevereiro 03, 2018

Conselhos para os reprovados no vestibular


Caro leitor,

sei que há uma série de sonhos e emoções relacionados ao vestibular. Embora para muitos dos seus amigos seja "apenas uma prova" – a velha história de que "ano que vem tem teste de novo" –, sei que para você não é assim que funciona. Você sonhou com este dia. Preparou-se para ele. Porém, infelizmente, você foi reprovado. Não é nada fácil.

Ao sermos reprovados em um aspecto de nossa vida, questionamos todo o resto. Parece que não fomos apenas reprovados em uma prova, e sim que reprovamos como pessoa. Chegamos a pensar que somos inferiores, menos privilegiados e até mesmo que não fazemos nada importante. Não caia nesta armadilha. Sua vida não pode ser medida por uma prova. Jamais.

Diante disso, gostaria de fornecer alguns conselhos para você lidar com a sua reprovação. Sabemos que é muito mais fácil falar do que fazer. Todavia, é difícil fazer algo valioso sem que haja planejamento. Espero que o meu falar o auxilie a tomar boas atitudes.

Primeiro, não deposite sua confiança no vestibular. Não pense que ele é a chave para a satisfação de seus anseios. Longe disso. Embora a aprovação no vestibular resulte em boas oportunidades para a vida, ela não levará você da água ao vinho. De fato, você encontrará na universidade tanto bons caminhos para o amadurecimento pessoal e profissional, quanto maus caminhos para a imoralidade cuidado, sua aprovação no vestibular pode levá-lo da água à lama.

Então, antes de qualquer coisa, fortaleça-se em Cristo Jesus. Ele, sim, é digno de toda a sua confiança. Ele verdadeiramente satisfaz a alma. Considere a aprovação no vestibular como meio de adorar e servir a Jesus. Fortaleça-se na verdade por meio da leitura séria da Bíblia, oração, comunhão com os irmãos da igreja e recebimento de pregações fiéis da Palavra de Deus em sua igreja local. Além disso, procure entender como a fé cristã se relaciona com o campo de estudo do qual você quer fazer parte. Procure respostas às suas dúvidas, a fim de que você não seja presa do secularismo na universidade.

Tratemos de conselho mais técnico. Ele é simples. No entanto, muitos fracassam no vestibular por não observá-lo. Por favor, preste muita atenção: não estude para a próxima prova como se você fosse "zerado". Você sabe que os professores do ensino médio e dos cursinhos têm plano a cumprir. Não interessa se a turma seja de veteranos do vestibular, eles terão de seguir a ementa. Mas, se você já se prepara para o vestibular há algum tempo, com certeza há assuntos que você possui certa facilidade (não é verdade?!). Portanto, neste novo ciclo de estudos, comece fazendo um esquema com todas as disciplinas e assuntos relacionados. Marque os que você domina e os que você tem mais dificuldade. Este esquema regerá toda a sua rotina de estudos deste ano.

Assim, logicamente, você deve focar seus estudos em corrigir as suas falhas. Por exemplo, se você tem facilidade no assunto de matrizes e dificuldade em trigonometria, não é nada proveitoso revisar muito aquele e estudar pouco este. Sei que gostamos de nos iludir estudando bastante o que já sabemos, mas você deve vencer esta tentação. Neste mesmo sentido, se você tem facilidade em exatas e é péssimo em humanas, por favor, enfatize o estudo de humanas. Caso contrário, você se dará mal nos mesmos assuntos novamente.

Portanto, uma implicação: você não deve frequentar as aulas como um iniciante. Se você sabe que o conteúdo a ser ministrado pelo professor faz parte daqueles assuntos que você domina, não perca tempo. Neste período, enfatize o estudo em casa. Faça poucos exercícios do que você já sabe e se esforce para aprender os conteúdos em que você é fraco. Por favor, não caia no erro de seguir toda e qualquer programação da escola ou do cursinho. Lembra daquelas aulas aos domingos que sanarão todas as suas dúvidas? Não as frequente. Simples assim.

Finalmente, estude redação. Para isso, leia bons materiais. Se o Facebook e cia são a sua principal fonte de informação, você está perdido. O primeiro caminho para a boa escrita é a leitura de bons livros. Neste processo contínuo, você aprende ortografia e a como concatenar ideias. Você é treinado para se concentrar. Aliás, tal habilidade é uma das maiores deficiências de nossa geração. Estamos acostumados a ter o nosso foco periodicamente interrompido por inúmeras interações virtuais, e isso é trágico para quem quer fazer algo importante. Se você quer ser aprovado no vestibular, repense toda a sua vida on-line. Se possível, utilize redes sociais apenas durante poucos minutos aos fins de semana. Sua vida melhorará substancialmente. Ademais, escreva muito. Ninguém melhora a escrita apenas por observação. Você precisa treinar. Faça exercícios simples. Por exemplo, escolha um tema atual e então disserte sobre isso. Peça a um professor ou a algum amigo confiável para lhe dar um retorno. Não dependa apenas das aulas de redação na escola [1].

Obrigado por sua atenção e que Deus o abençoe.

[1] No texto Minhas principais leituras de 2017, faço a indicação de um livro que o ajudará muito a escrever melhor. Por favor, procure adquiri-lo. Ele é ótimo investimento.

segunda-feira, janeiro 22, 2018

O Culto de Narciso


Narciso na primavera, Jan Ross.

As marcas da era digital são indeléveis. Seja no dia a dia familiar, sejam nas atividades da igreja, é impossível fugir da influência da tecnologia em nosso modo de pensar e agir. Por estarmos acostumados com as principais potencialidades da internet, por vezes, parece-nos impossível deixar de lado o nosso eu virtual. Podemos, inclusive, cair no erro de agir como se este fosse o nosso verdadeiro eu.

É claro que demonstrações de carinho e afeto não surgiram em nossos tempos. No entanto, a necessidade de realizar tais provas de amor em público é sentimento peculiar de nossa geração. Escrever os chamados “textões” no Facebook parece nos dar mais prazer do que produzir uma carta. Quer assumamos ou não, mesmo que a pessoa à qual nos dirigimos leia nossas declarações em ambos os casos, nossas afirmações públicas têm gosto especial: a de sermos reconhecidos por outros. Na loucura de nossos tempos, somos capazes de tornar nossos momentos mais íntimos e especiais em meios para a autoexibição.

Infelizmente, é possível transformar um simples “eu te amo, mãe” em meio para receber um soberbo “nossa, como ele é filho exemplar”, ou um tolo “esta família que a gente respeita”. Para vergonha nossa, somos capazes até mesmo de mascarar algum passeio comum (não tão legal e emocionante) com os amigos através de legendas repletas de “#MelhoresAmigos#PasseioTop”. Afinal, na era das redes sociais, nossa imagem e reputação parecem ser tudo.

A relação entre o homem e a paixão pela autoexibição não é tema recente. Por exemplo, na mitologia grega, somos apresentados ao mito de Narciso. Segundo escreve Thomas Bulfinch:

[…] Ali chegou um dia Narciso, fatigado da caça, e sentindo muito calor e muita sede. Debruçou-se para desalterar-se, viu a própria imagem refletida na fonte e pensou que fosse algum belo espírito das águas que ali vivesse. Ficou olhando com admiração para os olhos brilhantes, para os cabelos anelados como os de Baco ou de Apolo, o rosto oval, o pescoço de Marfim, os lábios entreabertos e o aspecto saudável e animado do conjunto. Apaixonou-se por si mesmo. Baixou os lábios, para dar um beijo e mergulhou os braços na água para abraçar a bela imagem. Esta fugiu com o contato, mas voltou um momento depois, renovando a fascinação. Narciso não pôde mais conter-se. Esqueceu-se de todo da ideia de alimento ou repouso, enquanto se debruçava sobre a fonte, para contemplar a própria imagem.”[1]

Neste mito, a paixão de Narciso por si mesmo o leva à morte. Decerto este é o clímax da narrativa. Porém, é interessante observar o aspecto gradual da autodestruição deste personagem. Primeiro, Narciso esquece-se de necessidades legítimas, tais como comer, beber e descansar. Segundo, o personagem mitológico utiliza o restante das energias dele para contemplar a nova paixão: a própria imagem. Então, Narciso, fascinado por si mesmo, morre esgotado.

Tal fascínio narcisista quer se estabelecer em nossa geração. É muito fácil crianças e adolescentes isolarem-se com a companhia apenas de um aparelho com acesso à internet. Ficar sozinho no quarto, fazendo inúmeras selfies, a fim de postar alguma foto bonita na rede é comportamento recorrente em nossos dias. Este estilo de vida é tão comum que muitos pais nem sequer incomodam-se com ele. Paira sobre eles a ideia de que “a vida do século XXI é assim mesmo.”

Porém, as práticas narcisistas não se restringem às interações familiares e sociais. Não importa onde estivermos, nosso coração propenso à autoexibição estará conosco. Por isso, até mesmo a interação humana mais importante está sob ataque: a nossa relação com o santo Deus.

Neste contexto, devemos lembrar-nos de que atividades como evangelismo, auxílio aos mais necessitados e oração privada são ações recomendadas pela Palavra de Deus. Tudo isso é bem-vindo se for realizado dentro do que é prescrito pelo Senhor. Assim, qual o padrão que o Senhor Jesus estabelece para nossas obras? Vejamos:

Guardai-vos de fazer a vossa esmola diante dos homens, para serdes vistos por eles; aliás, não tereis galardão junto de vosso Pai, que está nos céus. Quando, pois, deres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão. Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita; para que a tua esmola seja dada em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, ele mesmo te recompensará publicamente. E, quando orares, não sejas como os hipócritas; pois se comprazem em orar em pé nas sinagogas, e às esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão. Mas tu, quando orares, entra no teu aposento e, fechando a tua porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará publicamente” (Mateus 6.1-6).

O padrão bíblico para as ações do povo de Deus, portanto, é a discrição. Tal virtude envolve humildade. Porque, quando se é discreto, Deus é o foco dos pensamentos e ações. No entanto, por meio de uma simples foto publicada na internet, o nosso serviço a Deus pode ser inteiramente desperdiçado e nossa recompensa reduzida à mera glória humana. Tratando acerca disto, Tony Reinke escreve:

A agitação de aprovação social tem condicionado que alimentemo-nos de ‘pequenas explosões de confirmação dadas através de cada curtida, marcação como favorito, retweet, ou compartilhamento’.[2] Este novo condicionamento fisiológico significa que nossas vidas tornam-se mais dependentes da aprovação dos outros a cada momento. O problema não é apenas que precisamos nos afastar destas pequenas explosões de aprovação, mas que devemos nos reprogramar desta fome on-line.

Caso não nos desintoxiquemos destes hábitos, continuaremos procurando intimidade reproduzindo nossa própria imagem, embebedando-nos da aprovação humana e iniciando cada dia com ressaca desta. E então precisaremos do antídoto de nova afirmação por parte de nossos amigos a fim de nos mantermos convencidos de que nossas vidas têm sentido. Isto é trágico. É recompensa desperdiçada. O louvor sólido que esperamos da parte de Deus é baseado em ações que, em grande medida, não são vistas agora; o louvor caprichoso que buscamos on-line é baseado no que exibimos.[3] Não podemos negligenciar este contraste.”[4]

O alerta de Tony Reinke é muito sério, pois ele enfatiza o ensino de Jesus acerca de quem exibe-se aos outros: “Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão”. Assim, estamos diante de uma escolha simples. Ou agimos discretamente a fim de receber a recompensa eterna que vem de Deus, ou agimos de modo a exibir nossas boas obras com o intuito de recebermos a recompensa temporária da parte dos homens.

Diariamente, precisamos nos lembrar disso. Seja a jovem mãe que precisa parar de expor o filho todo dia, apenas para receber uma dose de “nossa, amiga, como ele é lindo#presentedeDeus!” Ou o pastor que não consegue passar uma semana sem postar foto do rascunho dos sermões, para mostrar que ele leva a sério a pregação fiel da Bíblia. E o que dizer do pregador que ama ver a imagem dele nas redes? O objetivo não é a edificação do povo de Deus, e sim a da própria soberba. Lembremo-nos de que até mesmo um pedido de oração semanal pode ter más intenções. O que seria para pedir a bênção de Deus sobre o culto, pode, na verdade, manifestar a necessidade de consumo de porção de reconhecimento por parte dos outros.

Precisamos combater este impulso à autoexibição com todas as nossas forças. Nossas obras têm consequências eternas. Não podemos brincar com elas. Além disso, o culto ao Deus verdadeiro está em jogo. Se o objetivo de nossas ações, inclusive as ditas “religiosas”[5], for a criação de belo álbum no Facebook e a aquisição de mais seguidores no Instagram por meio da autoexibição, Deus não será cultuado. Na verdade, se nossa imagem for o foco de nosso culto, realizaremos uma das piores formas de idolatria: a idolatria do eu, travestida de adoração ao Deus verdadeiro.

Que Deus nos livre disso.

Notas:

[1] Thomas Bulfinch, em O livro de ouro da mitologia: histórias de deuses e heróis, Agir, 2014, p. 108.

[2] Alastair Roberts, compartilhado com permissão (citação original em [4]).

[3] Rm 2.28-29 (citação original em [4]).

[4] Tony Reinke, em 12 Ways Your Phone is Changing You (12 Maneiras em que Seu Telefone está Mudando Você), Crossway, 2017, p. 76.

[5] O pensamento de que nossa vida é dividida em secular e sagrado é muito comum. A parte “secular” compreenderia as nossas atividades “não religiosas”, tais como emprego, estudos, diversão. O “sagrado”, por sua vez, seria constituído do que “fazemos para Deus”, como orar, ler a Bíblia, ir à igreja. Porém, na verdade, somos chamados a viver em todas as áreas de nossa vida para a glória de Deus. Assim, não há como consagrarmos a Deus apenas algumas de nossas ações ou partes específicas do nosso tempo. Tudo deve ser santificado ao Senhor. Então, devemos tomar cuidado com a idolatria do eu inclusive nas atividades que realizamos fora do contexto eclesiástico.

sábado, janeiro 06, 2018

A carta aos Hebreus e a autoria Paulina - (subsídio lições Bíblicas 2018)

Nesse primeiro trimestre de 2018 estudaremos a Carta aos Hebreus e a primeira lição, como de
praxe, faz um estudo introdutório da carta. Um desses elementos se refere a autoria da epístola.  A pergunta "quem escreveu Hebreus?" até hoje reverbera em um momento ou outro no debate teológico. A erudição teológica, de maneira geral, afirma atualmente certo agnosticismo com relação à autoria da Carta. Talvez a única certeza que a maioria dos teólogos afirmem é que certamente tal epístola não provém do apóstolo Paulo.

De maneira interessante, não era esse o consenso de grande parte da igreja no período patrístico, nem tampouco o consenso universal da cristandade a paritr de 400 d.C. De maneira geral, a igreja defendeu vigorosamente a autoria paulina da Espístola aos Hebreus. Quais os motivos para tal quebra de consenso? É possível ainda defender a autoria Paulina? É o que veremos a seguir.


- A Igreja Primtiva e Hebreus:

As primeiras citações de Hebreus provêm bem cedo na história da igreja. A Epístola de Clemente de Roma aos Coríntios é recheada da fraseologia e dos temas teológicos de Hebreus. No lado oriental da Cristandade, de fala grega, a epístola é contada como paulina, ainda que o estilo divergisse do estilo de Paulo. Segundo Pateno e Clemente de Alexandria, o autor da Epístola seria o apóstolo Paulo, porém o estenográfo (redator) da carta seria outro (Clemente de Alexandria sugere que foi Lucas que atuou como o redator). Um dos mais antigos manuscritos gregos do Novo Testamento, o papiro 66(século III depois de Cristo), coloca Hebreus logo após Romanos. A frase de Orígenes, registrada por Eusébio de Cesaréia em sua História Eclesiástica, é muito usada para sustentar um desconhecimento da autoria da carta: "Quem escreveu a carta, só Deus sabe". Todavia, um exame mais minucioso da frase mostra que Orígenes defendeu a autoria paulina:

 "Mas eu diria que os pensamentos são do apóstolo [Paulo], mas o discurso e a fraseologia pertencem a alguém que registrou que disse o apóstolo, e anotou livremente o que o seu mestre dizia... mas só Deus sabe quem realmente escreveu a epístola...de acordo com alguns, que Clemente, que era bispo de Roma, escreveu a epístola; de acordo com outros, que foi escrita por Lucas, que escreveu o Evangelho e os Atos"¹.

Fica claro, a partir do contexto, que Orígenes não atribui unicamente à onisciência divina quem é o autor da epístola, mas sim seu redator. Uma prova cabal que Orígenes cria na autoria paulina da espítola provém de sua declaração em sua magnum opus, Contra Celso. Neste livro, ao refutar o filósofo pagão Celso, Orígenes declara:

"Pois está escrito na carta de nosso Paulo aos Coríntios, gregos, cujos costumes ainda não tinham sido purificados: 'Dei-vos a beber leite, não alimento sólido, pois não o podíeis suportar. Mas nem mesmo agora podeis, visto que ainda sois carnais. Com efeito, se há entre vós invejas e rixas, não sois carnais e não vos comportais de maneira meramente humana' ( 1 Co 3,2-3). E este mesmo apóstolo, sabendo que certas verdades são o alimento da alma adiantada na perfeição, e outras, dos neófitos, são comparáveis ao leite das criancinhas, declara: 'Precisais de leite, e não de alimento sólido. De fato, quem ainda se amamenta não pode degustar a doutrina da Justiça, pois é criancinha! Os adultos porém, que pelo hábito possuem o senso moral exercitado para dicernir o bem e o mal, recebem o alimento sólido' (Hb 5,12-14)" (Contra Celso 3.53).²


Ainda que na igreja do ocidente houvessem dúvidas no que tange a autoria³, tais dúvidas se dissiparam devido a ampla aceitação da Epístola em várias igrejas, e por fim a aceitação que a Epístola provinha do apóstolo Paulo.

- A Opinião contemporânea acerca da autoria de Hebreus e a evidência interna:

A maioria dos estudiosos, em especial a partir do século XVIII e e XIX, começaram a lançar dúvidas acerca da autoria paulina de Hebreus. Dentre as maiores objeções, há as seguintes:

1. A ausência da tradicional identificação paulina, contida em todas as outras epístolas.
2. O estilo literário da epístola, que divergia em muito em termos do estilo Paulino.
3. A evidência que o autor na verdade não participara do círculo apostólico (Hb 2.3).

A primeira objeção, ainda que válida, pode ser explicada de várias maneiras. Uma possível explicação se daria pelo fato de aqui, Paulo não estar escrevendo para uma igreja gentítilica ou predominamente gentílica, mas sim para uma das igrejas mais primitivas do cristianismo: uma igreja judaica. Aqui, Paulo não precisa reforçar sua imagem como apóstolo, pois ao que tudo indica, todos os ouvintes sabiam quem ele era (Hb 13.22). Aqui, Paulo fala como "hebreu de hebreus", seu estilo fugiria do convencional, pois não se trata simplesmente de uma epístola, mas sim de uma palavra de exortação (gr. του λογου της παρακλησεως Hb. 13.22).  Em Atos 13.15, Lucas relata que Paulo e Barnabé entram em uma sinagoga e são convidados a dar uma "palavra de consolação" (λογος εν υμιν παρακλησεως), quem profere a palavra, aqui, é Paulo. O contexto hebraico da carta aos hebreus e sua natureza homilética só reforçam a autoria paulina.

A segunda objeção, bastante válida, tem ganhado, todavia, objeções de peso  através do trabalho de David Alan Black, professor de grego do Southeastern Baptist Theological Seminary e através da teóloga alemã Eta Linnemann. Em seu livreto monumental The Authorship of Hebrews - The Case for Paul (A autoria de Hebreus - Em defesa de Paulo). Black traça vários paralelos de expressões gregas encontradas em Hebreus e nas cartas paulinas, indo até mesmo a temas teológicos. De maneira semelhante, o artigo científico de Eta Linnemann, A Case for a Retrial of the Epistle of Hebrews (Um caso de Reanálise da epistola aos Hebreus), mostra claramente evidências linguísticas que estão de acordo com a linguagem paulina.

Mesmo um exame comparativo com a tradução em português é possível captar semelhanças temáticas e às vezes linguísticas entre o Paulo e Hebreus. Dentre as quais destacamos a seguir:

E eu, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a meninos em Cristo. Com leite vos criei, e não com carne, porque ainda não podíeis, nem tampouco ainda agora podeis. (1 Co 3.1-2)

Porque, devendo já ser mestres pelo tempo, ainda necessitais de que se vos torne a ensinar quais sejam os primeiros rudimentos das palavras de Deus; e vos haveis feito tais que necessitais de leite, e não de sólido mantimento. Porque qualquer que ainda se alimenta de leite não está experimentado na palavra da justiça, porque é menino. Mas o mantimento sólido é para os perfeitos, os quais, em razão do costume, têm os sentidos exercitados para discernir tanto o bem como o mal. (Hb 5.12-14).

Porque tenho para mim, que Deus a nós, apóstolos, nos pôs por últimos, como condenados à morte; pois somos feitos espetáculo ao mundo, aos anjos, e aos homens. (1 Co 4.9)

Em parte fostes feitos espetáculo com vitupérios e tribulações, e em parte fostes participantes com os que assim foram tratados. (Hb 10.33)

Como tenho por justo sentir isto de vós todos, porque vos retenho em meu coração, pois todos vós fostes participantes da minha graça, tanto nas minhas prisões como na minha defesa e confirmação do evangelho (Fp 1.7).

Porque também vos compadecestes das minhas prisões, e com alegria permitistes o roubo dos vossos bens, sabendo que em vós mesmos tendes nos céus uma possessão melhor e permanente (Hb 10.34).

Se for possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens (Rm 12.18)

Segui a paz com todos, e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor (Hb 12.14).

Depois desse comparativo, o leitor é covidado a fazer um comparativo do epílogo de Hebreus com os demais epílogos das outras cartas paulinas.  O epílogo tem forte sabor paulino:

Orai por nós, porque confiamos que temos boa consciência, como aqueles que em tudo querem portar-se honestamente. E rogo-vos com instância que assim o façais, para que eu mais depressa vos seja restituído. Ora, o Deus de paz, que pelo sangue da aliança eterna tornou a trazer dos mortos a nosso Senhor Jesus Cristo, grande pastor das ovelhas, Vos aperfeiçoe em toda a boa obra, para fazerdes a sua vontade, operando em vós o que perante ele é agradável por Cristo Jesus, ao qual seja glória para todo o sempre. Amém. Rogo-vos, porém, irmãos, que suporteis a palavra desta exortação; porque abreviadamente vos escrevi. Sabei que já está solto o irmão Timóteo, com o qual, se ele vier depressa, vos verei. Saudai a todos os vossos chefes e a todos os santos. Os da Itália vos saúdam.
A graça seja com todos vós. Amém.

Por último, resta a objeção levantada com base em Hebreus 2.3: "Como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande salvação, a qual, começando a ser anunciada pelo Senhor, foi-nos depois confirmada pelos que a ouviram".

A objeção é levantada pelo fato do autor parecer pertencer a segunda geração de discípulos. Todavia, é importante ressaltar aqui é que o autor não afirma ter recebido a revelação dos apóstolos, mas sim a confirmação por parte dos apóstolos. Ora, isso está totalmente de acordo com o que sabemos de Paulo.

Confrontando a opinião corrente, Eta Linnemann dá sua explicação de Hebreus 2.3:

"A segunda metade de Hebreus 2.3 está em aposição com o conceito de 'grande salavação'. Dessa 'grande salvação' eles obtém confirmação. A 'grande salvação' é o sujeito, não o 'nós', no qual o autor da epístola se coloca juntamente. Ocorre unicamaente com relação à salvação. Não siginifica aqui 'ensinar' ou 'fazer discípulos', mas 'estabelecer', 'confirmar', 'garantir'. Porque os mais jovens ouviram a proclamação de grande salvação do Senhor confirmada, eles são o 'nós' pela qual foi garantinda, não seus pupilos.Hebreus 2.3 certamente exclui o autor de ser inequivocadamente um jovem seguidor de Jesus de ser o autor de Hebreus, mas não o apóstolo Paulo, que nunca foi um inequívoco jovem seguidor de Jesus! O que se lê aqui então não entra em contradição com o que lemos em Gálatas 1.16-17)".

Conclusão

Apesar de hoje majoritariamente a autoria paulina ser descartada, ela não ficou todavia, sem defensores de peso na atualidade. Os argumentos levantados por David Alan Black e Eta Linnemann são fortes o bastante para ao menos se considerar o apóstolo Paulo como o mais provável candidato à autoria da carta, se não provam, realmente, que o apóstolo dos Gentios, certamente é o autor da epístola. Certamente que optar pela defsa da autoria paulina, terá como aliado o peso da grande tradição cristã. Tradição essa, que como Black e Linnemann mostram, tem muito a nos dizer.

Soli Deo Gloria.

Notas:

1. CESARÉIA, Eusebio de. História Eclesiásica. Tr. Lucy Iamakami. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.p. 227.
2. ALEXANDRIA, Orígenes de. Contra Celso. Tr. Orlando dos Reis.2° ed. São Paulo: Paulus,2011. p.251
3. A igreja no ocidente aceitou de maneira definitiva o testemunho paulino de Hebreus através dos escritos de agostinho e Jerônimo. Na época da reforma, tanto Lutero quanto Calvino discordavam da autoria paulina de Hebreus. Lutero sugeriu Apolo como o mais provável candidato. Todavia, é de se estranhar que a igreja em Alexandria, de onde Apolo provinha, nunca sugeriu ter sido ele o seu autor.

domingo, dezembro 31, 2017

Servorum 2017: abatidos, mas não destruídos.

 

O inverno não havia chegado. O carro estava funcionando bem, mas eu sabia que também em breve precisaria de reparos. O que mais me chamou a atenção porém, foi a expressão preocupada de Carlos Eduardo, meu amigo e companheiro de ministério, um dia após a Conferência Graphe 2017. "Está sofrendo por antecipação", pensei eu. Porém no cair da noite, a mesma preocupação começou a aparecer em minha mente também. "E se isso realmente acontecer...?" Pelo que pude notar, isso estava mais próximo do que eu imaginava, e logo realmente aconteceu.

O motivo de nossa preocupação foi o recebimento de informações no que dizia respeito à denominação da qual fazemos parte. Informações que logo vieram a público. Quando vimos, dormimos sendo membros de uma congregação, e quando acordamos, já estávamos em uma igreja de outra convenção estadual, onde teríamos agora uma nova presidência, homens e mulheres teriam as mesmas funções pastorais, e um novo tipo de tradição. No fim, acordamos em uma outra denominação.

O ano de 2017 possuiu certos percalços. Neste ano, perdemos parentes mui próximos e amados (o falecimento de minha avó Cila, e de dona Marineide, mãe de Carlos), assim também como muitas alegrias vieram (o casamento de Nilton Rodolfo). Neste ano, conseguimos realizar a 7° Conferência Graphe, sendo essa umas das mais complexas até então. Pela graça de Deus, conseguimos superar os empecilhos e dificuldades. Sendo a sétima conferência a melhor, até então.

Ministerialmente, certamente não podemos esquecer das bênçãos alcançadas, porém não devemos mascarar as dificuldades. Muitos foram os desafios enfrentados, tanto interna quanto (talvez até mais) externamente. Porém, não deveríamos estar abalados, pois afinal, não é assim que um ministério é forjado? Certamente que o apóstolo Paulo, através do Espírito Santo, tem muito a nos ensinar.

Em uma de suas epístolas mais pessoais, onde faz uma defesa de seu apostolado, Paulo descortinava seu coração perante os ouvintes:

"Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desanimados. Perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos", mais à frente, o apóstolo comenta: "antes, como ministros de Deus, tornando-nos recomendáveis em tudo; na muita paciẽncia, nas aflições, nas necessidades, nas angústias, nos açoites, nas prisões, nos tumultos, nos trabalhos, nas vigílias, nos jejuns, na pureza, na beneficiência. Na pureza, na ciência, na longanimidade, na benignidade, no Espírito Santo, no amor não fingido, na palavra da verdade, no poder de Deus, pelas armas da justiça, à direita e à esquerda, Por honra e por desonra, por infâmia e por boa fama; como enganadores, e sendo verdadeiros; Como desconhecidos, mas sendo bem conhecidos; como morrendo, e eis que vivemos, como castigados, e não mortos; como contristados, mas sempre alegres; como pobres, mas enriquecendo a muitos; como nada tendo e possuindo tudo" (2 Co 4.8-9; 6.4-10).

Não havia espaço na mente paulina para um ministério superficial e de vida-mansa. E isso é verdade também na vida de todo aquele que se coloca diante do ministério de Cristo. E mesmo diantes de tantas dificuldades, sabemos quão excelente é o ministério que Cristo dá. Que jamais os ministros de Cristo se esqueçam de tal verdade.

O inverno, por fim, chegou. Mais um ano está diante de nós. Não sabemos as dificuldades e bênçãos que o Senhor tem reservado para nós. O que sabemos é, que mesmo em meio a tempestades no mar, se estivermos com Jesus, logo chegaremos à margem em segurança (Jo 6.21). O importante é estarmos cientes de que até aqui nos tem ajudado o Senhor, aquele que promete nunca nos deixar ou desamparar.

O blog Servorum Dei deseja a todos os seus leitores um feliz 2018, repleto das bênçãos do Senhor Jesus Cristo, para a glória de Deus Pai, no poder do Espírito.

Amém!
Soli Deo Gloria

sábado, dezembro 30, 2017

Minhas principais leituras de 2017


Leitura é alimento. Obviamente, não para o corpo; mas, para a alma. Se você deseja desenvolver-se como pessoa, o caminho da leitura é praticamente inevitável. Assistir a bons vídeos e ouvir conteúdos saudáveis são meios interessantes de aquisição de conhecimento. Porém, tais meios não se equiparam à leitura. Ler exige que você pare de fazer outras coisas. Exige concentração. Até certo ponto, exige silêncio. Sem dúvida, a prática da boa leitura é arma poderosa contra a forte sedução à distração desenfreada de nossos dias.

Pense nos livros do seu plano de leitura como a dieta para a sua alma. Todos sabemos quão delicioso é consumir pizza e sorvete. Se você já teve o prazer de conhecer Belém do Pará, você deve ter guardado no coração a maravilhosa sensação de tomar açaí. Entretanto, embora às vezes nos esqueçamos disto, sabemos que preencher nossa dieta apenas com sobremesas não é saudável. Sem boa variedade de consumo de alimentos, inclusive daqueles vegetais não muito saborosos, ficaremos desnutridos. Assim, também, devemos ter boa variedade de leituras para crescermos saudavelmente.



Tony Reinke, no espetacular livro Lit!, recomenda que todo leitor deve estabelecer prioridades para definir quais livros ler no ano, a fim de possuir boa dieta de leitura. Para escolhermos as nossas, é muito válido, primeiramente, vermos quais as prioridades de Tony. Cito-as abaixo.


1) Ler a Bíblia;

2) ler para conhecer e deleitar-se em Cristo;

3) ler para atiçar reflexão espiritual;

4) ler para iniciar mudança pessoal;

5) ler para buscar a excelência vocacional;

6) ler para desfrutar de uma boa história.

Gosto destas prioridades porque elas envolvem tanto a leitura de bons livros teológicos e doutrinários, quanto de livros de ficção e fantasia, para diversão saudável. Decerto, esta lista é ótimo ponto de partida para elaboração de nossa própria lista de prioridades. Tomando-a como modelo, o importante é não fazer uma dieta de leitura desbalanceada. Por exemplo, ler ficção o ano todo é semelhante a tomar sorvete em toda refeição: é até saboroso, mas nos deixa desnutridos mental e espiritualmente. Afinal, um dos papéis fundamentais deste tipo de literatura é nos ajudar a enxergar, por outra perspectiva, a realidade à nossa volta. Mas se passarmos o ano todo em outros "universos", como utilizaremos a fantasia adequadamente para ler o nosso próprio mundo?

Antes de apresentar as minhas principais leituras deste ano, gostaria de incentivar você a ler mais. Primeiro, saiba que é possível. Ler mais de dez livros por ano não é apenas para os excepcionais. Longe disso. Segundo, você precisará de disciplina para planejar e administrar o seu tempo melhor. Por exemplo, já pensou se aqueles minutos gastos com facebook e instagram nos primeiros momentos do seu dia, após as refeições e antes de dormir fossem convertidos em tempo de leitura? Se eu incentivar você a ler pelo menos uma hora por dia, talvez você se assuste. Mas pare para somar o tempo total gasto com os seus momentos nas redes sociais ao longo do dia; é bem provável que ele seja muito maior que sessenta minutos.

Finalmente, vamos às minhas principais leituras de 2017. Elas estão organizadas em categorias. Espero que você tire proveito delas.

Cosmovisão Cristã

1. Nancy Pearcey. Finding Truth (David C. Cook, 2015)

Esta foi a minha primeira leitura de Nancy Pearcey, e tal obra já entrou para o hall da fama. A autora consegue abordar temas difíceis de maneira clara e consistente.

Para quem quer se aventurar na leitura de livros em inglês, Finding Truth: 5 Principles for Unmasking Atheism, Secularism, and Other God Substitutes [Encontrando a Verdade: 5 Princípios para Desmascarar o Ateísmo, o Secularismo e Outros Substitutos de Deus] é ótima pedida. Como Nancy escreve de maneira simples, até quem não é muito bom em inglês consegue lê-la. (Acredite em mim, falo por experiência própria.)

Em suma, esta pérola é um maravilhoso manual de apologética. Conforme abordado neste livro, geralmente os cristãos são ótimos em dizer "não". Muitos pais e professores cristãos facilmente dizem "isto faz mal", "isto é errado" ou "você precisa orar mais", quando seus filhos e alunos fazem perguntas acerca de assuntos que deixam a fé destes em jogo. Porém, sem uma resposta sólida, a imagem que se passa aos mais novos é a de que o cristianismo só possui negações. Como se a fé cristã não fosse capaz de responder objetivamente aos anseios do homem moderno.

Para corrigir isso, Nancy Pearcey aborda cinco princípios, baseados em Romanos 1, para desmascarar qualquer cosmovisão que tente usurpar o lugar de Deus. Estes princípios estão indicados abaixo.

1) Identifique o ídolo;

2) identifique o reducionismo;

3) teste a cosmovisão contra os fatos da experiência;

4) mostre que toda cosmovisão reducionista é autodestrutiva;

5) defenda a cosmovisão cristã.

Resumidamente, toda cosmovisão não cristã adota algum elemento da criação como o princípio pelo qual tudo o mais será explicado e analisado. Assim, identificar este elemento (ídolo) é o primeiro passo. O segundo passo consiste em identificar o reducionismo decorrente desta idolatria. Por exemplo, se idolatramos a capacidade de trabalhar, tal cosmovisão levará ao desprezo pelos idosos e doentes. Isto é sério, pois, neste tipo de cosmovisão, os mais fracos são descartáveis.

Terceiro, este pensamento não condiz com o que experimentamos diariamente. As pessoas têm valor intrínseco, independentemente de suas capacidades laborais é só perguntar a pais cujos filhos possuem algum tipo de deficiência que os impede de trabalhar. Quarto, tal pensamento comete suicídio. É só aplicar o princípio fundamental na própria cosmovisão: se todos que não trabalham são inúteis, isso envolve os próprios propagadores deste pensamento, pois todos já fomos bebês frágeis e sem capacidade laboral imediata.

Finalmente, o quinto princípio consiste em mostrar como a cosmovisão cristã é coerente. Tendo o Deus verdadeiro como o fundamento de seu pensamento, a cosmovisão cristã afirma que os homens têm valor por quem eles são, e não pelo que fazem. Todos os homens são pessoas (e não simplesmente "humanos"), independentemente de terem, ou não, alguma limitação física ou mental.

Além de tudo isso, Nancy termina o livro com um capítulo sobre "Como o pensamento crítico salva a fé", enfatizando que a forma mais fácil de absorvermos más cosmovisões é nunca ter pensado acerca delas. Isto é fundamental para universitários cristãos. Pois enfrentar maus pensamentos presentes na academia sem possuir algum filtro pré-estabelecido, é tão perigoso quanto lançar um recém-nascido numa vala doenças, ou até mesmo a morte, virão daí.

Finding Truth possui 384 páginas, compreendendo um guia de estudo para o leitor dominar o seu conteúdo. Li a versão em kindle, pois estava com ótimo desconto. Vale demais a leitura.

Excertos:

"[...] Isto explica por que a Bíblia não contrasta o cristianismo com o ateísmo, e sim com a idolatria. [...] Os humanos têm a tendência de olhar para algum poder, princípio ou pessoa para a vida fazer sentido e dar algum sentido para ela. E isto constitui a de facto religion deles, quer eles utilizem linguagem religiosa ou não." (43)

"Qual a conexão entre ídolos e comportamento imoral? A ligação é que ídolos sempre levam a uma visão inferior acerca da vida humana. A Bíblia ensina que os humanos foram feitos à imagem de Deus. Quando uma cosmovisão troca o Criador por algo na criação, ela também trocará uma visão elevada de humanos feitos à imagem de Deus por uma visão inferior de humanos feitos à imagem de algo na criação.

"Poderíamos dizer que qualquer conceito de humanidade é criado à imagem de algum deus." (44)

Santificação, Produtividade e Aperfeiçoamento Profissional

2. Tony Reinke. 12 Ways Your Phone is Changing You (Crossway, 2017)

Este é o terceiro livro que leio de Tony Reinke. Gosto demais de como ele escreve. Ele é ótimo exemplo de que a boa teologia é aquela que é aplicada às várias áreas da vida. Nesta obra, Tony começa com uma breve teologia da tecnologia e, então, parte para o título do livro propriamente dito -- 12 Ways Your Phone is Changing You [12 Maneiras em que o Seu Telefone está Mudando Você]. Como utilizarei este livro em postagens futuras, serei bem breve nesta descrição. O livro possui 222 páginas, compreendendo índice remissivo e índice de textos bíblicos. Graças a Deus, tive o prazer de adquiri-lo na versão impressa no primeiro semestre deste ano. Aliás, soube que a editora Concílio irá traduzir este livro. Esta é ótima notícia. Para você entender melhor qual o conteúdo deste livro, verifique estes vídeos depois: vídeo1 e vídeo2.

Excertos:

"Na realidade, somos finitos. Assumimos que podemos dirigir carros, ler e escrever em nossos celulares tudo ao mesmo tempo, mas somos mais fracos do que nossas suposições. Existir é estar confinado em limitações físicas -- limites e limiares que limitam o que podemos perceber e realizar. Quando vemos nossas vidas sempre através de vidro, esquecemo-nos de que somos feitos de carne e sangue." (63)

"[...] De um lado, a pornografia grátis, acessada em um smartphone, é agora culturalmente 'um perigo público de seriedade sem precedentes'. Mas de modo ainda mais preocupante, entre cristãos, a pornografia grátis acessada em um smartphone representa uma epidemia espiritual de gravidade sem precedentes na história da igreja, retirando de uma geração inteira de jovens cristãos a alegria deles em Cristo e corroendo almas de jovens pelo ácido do desejo descontrolado." (135)


3. Tim Challies. Do More Better (CruciformPress, 2015)

Este livro mudou a minha vida. Ele possui apenas 121 páginas, mas é poderoso. Primeiro, o autor gasta quatro capítulos tratando acerca do propósito de nossa criação: glorificarmos a Deus. E assim, toda a nossa motivação para sermos produtivos deve continuar sendo esta. Se perdermos isso de vista, não importa quantas tarefas consigamos efetuar em um dia, tudo isso não será legítimo culto a Deus e o princípio de que fazemos tudo para a glória de Deus não passará de brincadeira. Na segunda parte do livro, Tim Challies compartilha alguns princípios para ser produtivo. Brevemente, as explico abaixo.

1) Você precisa de uma plataforma que contenha apenas a lista de tarefas que você pretende realizar. Isto é semelhante à lista de compras do supermercado, cujos itens são riscados à medida que você os coloca no "carrinho";

2) você precisa de uma plataforma que possua todas as informações que você ache relevante para efetuar as tarefas pretendidas;

3) você precisa de uma agenda. Seus compromissos e prazos devem estar facilmente à disposição;

4) você precisa utilizar o seu e-mail apenas para comunicação. Talvez a sua caixa de e-mails seja uma bagunça, repleta de fotos, e-mails antigos inúteis, datas importantes, artigos que você achou interessante, tarefas que precisam ser cumpridas -- tudo isso porque o e-mail tem servido para cumprir o papel das três plataformas acima citadas.

Em Do More Better: A Practical Guide to Productivity [Faça Mais e Melhor: Um Guia Prático para a Produtividade], Tim Challies faz um ótimo trabalho a fim de nos ajudar a fazer mais, com qualidade, com o intuito de agradar a Deus. Se Deus permitir, em 2018, farei artigo apenas sobre isso para auxiliar os caros leitores.

Excerto:

"A produtividade – a verdadeira produtividade – nunca será melhor ou mais forte do que o fundamento sobre o qual você a constrói. [...] A produtividade não é o que trará propósito para a sua vida, mas o que permitirá que você viva com excelência o seu propósito de existência." (10)

4. Arlete Salvador e Dad Squarisi. Escrever Melhor (Contexto, 2012)

Este livro é muito especial para mim. Além de ser um dos primeiros livros que comprei após o meu casamento, ele é o material de cabeceira que eu precisava ter como profissional. A língua portuguesa é fantástica, mas parece que é difícil domá-la. Não sei se é só comigo, mas tenho a impressão de que aprendi bem pouco de língua portuguesa propriamente dita na escola. Afinal, o que é adjunto adnominal mesmo? Bem, se você também precisa correr contra o tempo perdido, seja como professor, estudante universitário, blogueiro ou pastor, adquira este livro. Na amazon, está bem em conta. Nesta obra concisa e objetiva, as autoras nos ensinam a editar nossos próprios textos, e nos fazem entender o mais importante de gramática a fim de produzirmos bons textos. Sem dúvida, este pequeno livro vale demais. São 221 páginas que você deve, primeiro, ler completamente, em sequência; e depois, utilizá-lo para consulta pelos próximos anos.



5. Jerry Bridges. Pecados Intocáveis (Vida Nova, 2012)

Este livro é bem legal. Ele trata dos chamados "pecados respeitáveis", aqueles que não causam vergonha à boa parte das pessoas. Pecados como ira, ansiedade, ingratidão, inveja são abordados pelo autor. Longe de ser um guia legalista, Jerry Bridges mostra que só é possível vencermos o pecado se estivermos perto de Cristo, por meio do Espírito Santo. O ensino de que devemos orar para que Deus nos dê graça para vencermos pecados específicos é um dos que mais gosto deste livro. Às vezes oramos de maneira geral, "Senhor, dá-me graça para vencer o pecado"; mas este tipo de oração não nos permite ver o agir de Deus em nosso dia a dia. Se, porém, orarmos para que um pecado específico seja mortificado, podemos fazer uma análise de nosso progresso neste sentido. Este livro contém 173 páginas de conteúdo que certamente beneficiarão a sua vida.

Excertos:

"[...] Portanto, quando mergulho em qualquer pecado que considero aceitável, não estou desprezando somente a lei de Deus; estou desprezando também o próprio Deus. Pense nisso da próxima vez que abrir a boca para criticar ou massacrar alguém. Entendeu agora por que eu disse que nossa descrição de pecado iria piorar?" (28)

"Imagine que alguém amado lhe diga: 'Não confio em você. Não acredito que você me ame e cuidará de mim.' Que afronta! Mas é isso que dizemos a Deus com nossa ansiedade." (62)

Amadurecimento Cristão

6. Russell Shedd. Viva Para a Glória de Deus (Shedd Publicações, 2014)

Esta categoria "amadurecimento cristão" compreende aqueles livros de tratamento de choque. Os livros que fazem parte dela são escritos por autores que podem nos tirar da zona de conforto. Esta é a parte da dieta que nos leva a comer alguns ingredientes não tão fáceis de serem engolidos, mas que possuem vitaminas necessárias para o nosso crescimento.

Russell Shedd é um dos autores mais pastorais que já li. Ao lermos os livros dele, parece que ele está sentado ao nosso lado, ensinando-nos, devido à grande humildade e franqueza em seus escritos. Viva para a glória de Deus mantém o padrão dos livros que já li deste amado autor, pois é um livro curto e objetivo. Shedd tem uma tese e ele vai fundamentá-la através de várias passagens bíblicas. Vale demais a leitura de suas 152 páginas.

Excerto:

"A teologia do desperdício não tem uma longa história como as discussões teológicas intermináveis sobre os atributos de Deus ou as duas naturezas de Cristo. É uma teologia ainda não bem elaborada e sem parâmetros certos. Muitos textos não discutidos neste livro têm reflexos nesta teologia. Não esperamos apresentar a última palavra, mas abrir a mente dos leitores para pensarem mais profundamente sobre a relação entre o desperdício e o juízo. Se a glória de Deus é, de fato, a razão da existência de tudo no universo, parece-me que a conclusão é: aquilo que não reverte em glória para Deus, não tem valor." (141)


7. A. W. Tozer. A Vida Crucificada (Vida, 2013)

Com estilo semelhante ao de Shedd, Tozer é leitura muito proveitosa. É interessante que não consegui ler este livro no ano passado, talvez porque já tivesse lido outros dois do Tozer. Mas, graças a Deus, neste ano recomecei a leitura e a completei. Tozer fala da vida crucificada, a vida de união mais profunda com o Senhor Jesus Cristo. Vale demais a leitura. São 240 páginas de pura sabedoria cristã.

Excerto:

"Outro método que Deus usa para desenvolver a autodesconfiança são as provações e as tentações extremas. Ouvindo alguns pregadores e lendo alguns livros, é fácil concluir que, depois que a pessoa nasceu de novo, acabou: nada de provações ou tentações. Os que creem no enchimento do Espírito Santo também comunicaram de algum modo a ideia de que esse é o fim de toda experiência cristã. Mas a Bíblia nos diz que, depois de ser cheio do Espírito, Jesus foi levado ao deserto para algumas tentações severas.

"Quando um cristão enfrenta uma provação ou uma tentação difícil ou extrema, ele é tentado a jogar a toalha, dizendo: 'Deus, não adianta. Não sou bom. Obviamente, o Senhor não me quer, então estou perdido'. Enquanto isso, ele se esquece de que Deus nos deseja ensinar, por meio dessas provações e tentações, que a autoconfiança é perigosa e não podemos contar com ela. Às vezes, quando algo nos faz explodir de raiva, pensamos que tudo acabou, em vez de entender que isso é uma prova de que não somos cristãos maduros. Precisamos entender a explosão como prova de que estamos mais perto do nosso lar eterno hoje do que estávamos ontem. Precisamos compreender que o nosso Pai celeste está permitindo que essas coisas nos aconteçam para nos fazer parar de confiar em nós mesmos e nos levar a depender exclusivamente do Senhor Jesus Cristo." (119-120)


8. Douglas Wilson. Fidelidade (Clire, 2017)

Este livro é leitura obrigatória para todo noivo ou marido cristão. Douglas Wilson trata do assunto da fidelidade de maneira clara e, muitas vezes, forte. Mas é necessário, afinal é um livro escrito para homens, e não para garotos sem o mínimo de maturidade. Adquira o seu no site da loja Clire – o livro e o frete saem bastante em conta. Ele possui 196 páginas.

Excerto:

"Devemos repensar o relacionamento entre ser masculino e ser seduzido. John Milton usa uma frase marcante em Paraíso Perdido, referindo-se àqueles que foram seduzidos pelas 'filhas dos homens'. Quando Adão contempla a sedução na qual tais homens, descendentes seus, incorrem, ele tenta culpar as mulheres envolvidas: 'A desgraça do homem continua a mesma, na mulher começa'. O arcanjo replica em contrário: 'Começa no homem quando se efemina'. (22)

Biografia



9. Steven Lawson. A Pregação Apaixonada de Martyn Lloyd-Jones (Fiel, 2016)

Ler boas biografias também é parte importante de nossa dieta de leitura. Se não tivermos nenhum contato com a história da igreja, podemos perder referência ou até mesmo perder algum testemunho da graça de Deus na vida de outros, que também pode ser útil para a nossa. Nesta obra, Steven Lawson faz ótimo trabalho. Esta é a biografia que da série Perfil de Homens Piedosos que mais gostei até então. E é bem provável que você fique louco para ler o livro Pregação e Pregadores, de Martyn Lloyd-Jones, devido ao grande número de vezes que Lawson cita este livro no texto dele. Este livro contém 168 páginas proveitosas.

10. Tiago Cavaco. Cuidado com o Alemão (Vida Nova, 2017)

Se você ainda não leu nada de Tiago Cavaco, planeje-se para fazê-lo em 2018. Você não se arrependerá. Cavaco não simplesmente escreve sobre algo, ele prega! E de modo vivo e muito interessante. Neste livro, o autor faz breve biografia de Lutero e depois trata de três assuntos, em que consistem as dentadas de Lutero, que devemos aprender com o reformador: 1) maldade, 2) meninada e 3) música. Além disso, ao fim de cada capítulo, o autor faz uma série de perguntas realmente confrontadoras e que nos levam à boa reflexão. Esta obra de 191 páginas é leitura obrigatória.

Excerto:

"Uma das tarefas mais sensíveis e urgentes para aqueles que estão casados é precisamente educar os filhos como 'a melhor lã das ovelhas', sem que sintam que todo o rebanho se limita a eles. Nesse sentido, aquilo que se ensina tem necessariamente de ser considerado superior àqueles que são ensinados. Se a fé cristã não for o mais importante para os pais que educam nos filhos, então os filhos rapidamente entenderão que são superiores à crença dos pais. Não se ensina nada de realmente importante às gerações mais novas se perceberem que são mais importantes do que aquilo que lhes é ensinado." (121)

Ficção

11. L. L. Wurlitzer. As Crônicas de Olam (Vol. 3): Morte e Ressurreição (Tolk Publicações: Fiel, 2017)

Chegamos à sobremesa. A cada dois livros de não ficção, leio um de ficção para descansar a mente. Vale a pena.

Pois bem, tentarei me controlar para não dar spoiler significativo sobre este livro. Morte e Ressurreição é a terceira parte da trilogia As Crônicas de Olam, escrita por L. L. Wurlitzer. Sem dúvida, este foi o livro mais esperado do ano. Posso dizer que possuo grande afeto para com esta série, porque, há dois anos, o primeiro volume dela revolucionou a minha vida como leitor. Eu estava há um bom tempo sem saber o que era boa ficção, e Luz e Sombras trouxe o ótimo gosto disto novamente. A série como um todo é cheia de ação e surpresas marcantes. Há descrições tão boas que o leitor consegue visualizar claramente as cenas, como se estivesse assistindo a um filme. Por ter gostado demais dos volumes 1 e 2, a expectativa para o fechamento da série era grandíssima. Mas o que dizer do volume 3? É difícil descrever o que sinto porque há um misto de emoções quando penso nesta obra. Eu gostei, sim; mas, ao mesmo tempo, fiquei frustrado. Gostei porque há inúmeras cenas legais e frases que levam à reflexão sadia. Há momentos muito emocionantes. Porém, há algumas coisas que me incomodaram. Primeiro, há mais erros de digitação do que nos outros volumes. Penso que uma obra deste nível deve ser impecável. Há até erro de troca de nome de personagem. Mas isso é algo que penso em tratar melhor com a própria editora Fiel. Segundo, o leitor fica com dúvidas ao fim da leitura. Pelo menos, eu fiquei. É claro que o autor tem o direito de fechar a história como ele bem quiser (aliás, eu o respeito bastante), mas penso que a leitura é um compromisso de duas vias. O leitor é atraído pelo enredo principal da história e almeja que, pelo menos, todas as perguntas relacionadas à ideia central da obra sejam respondidas. Quando isso não ocorre, ou quando ocorre com ambiguidades, é frustrante. Recomendo a leitura de toda a série. Ainda a amo. Porém, posso dizer que o volume 3 poderia ser muito melhor (embora ele não seja ruim). Na avaliação do skoob, de 0 a 5, minha nota é 4. Escrevo isso de coração partido.

12. N. D. Wilson. Outlaws of Time (Vol. 1): The Legend of Sam Miracle (Katherine Tegen Books, 2016)

Este livro é demais! Gostei demais da história dele. Escrito por Nate Wilson, filho de Douglas Wilson, The Legend of Sam Miracle [A Lenda de Sam Miracle] é a primeira parte da trilogia Outlaws of Time [Foras da Lei do Tempo]. É um livro infanto-juvenil. Ele possui cosmovisão cristã, embora não seja uma analogia como As Crônicas de Nárnia. Se este livro fosse traduzido para português, ele seria uma febre do estilo de Harry Potter. Assisti a uma entrevista do autor e ele disse que escreve para "catequizar" os leitores infanto-juvenis. Valores de fé, coragem e motivos pelo qual vale a pena morrer, são alguns dos ensinamentos bastante claros neste livro. Sam Miracle é um adolescente de 12 anos de idade que possui os braços praticamente imprestáveis. Ele mal consegue levantá-los. Por exemplo, quando Sam sofre alguma queda, é necessário que um de seus companheiros de orfanato o ajude a levantar. No entanto, durante momentos em que imagens vêm à mente dele, as quais Sam pensa que são sonhos, ele é um atirador muito veloz e preciso. Um verdadeiro atirador de bang bang. Em suma, este livro é ótima leitura. História e personagens muito bem construídos e desenvolvidos. Você pode ver o anúncio deste livro neste vídeo aqui.

Excertos:

"'Você precisa ser uma nova lenda,' disse o garoto, batendo no peito dele. 'Com o seu coração primeiro e então com suas mãos.’ Ele olhou para cima do vale. ‘E ambos precisam ser agora.'" – Baptisto

"Para com os monstros, seja monstruoso. Seja perigoso, e que em todo o mundo não haja nenhum lugar chamado Perigoso por aqueles que você ama." – Manuelito

"'Você daria suas pernas se isto significasse salvar a vida dele?'
"Glory estava em silêncio. É difícil dizer, mas ela possuía quase certeza de que o padre estava encarando-a.
"'Coragem antes de uma batalha é coisa simples,' disse o padre calmamente. 'Sacrifícios são prometidos facilmente.'"

"'Você não pode deixá-lo?' Manuelito olhou para ela, sorrindo levemente. 'Você é a rainha das permissões?'"

13. J. R. R. Tolkien. O Silmarillion (WMF Martins Fontes, 2011)
Nesta obra, iniciou-se a minha longa jornada pela terra-média neste ano. Este livro é muito bom. Tudo muito bem desenvolvido, tratando desde a criação de todo o universo em que a terra-média se insere, até o fim da terceira era -- período que compreende os acontecimentos de O Senhor dos Anéis. A primeira parte é bem fácil de ler. Tudo é muito dinâmico e envolvente. Na segunda parte, onde inicia-se a história das silmarils propriamente dita, o começo não é tão fácil de ler. Mas após 50 páginas você estará acostumado com o estilo de Tolkien e a leitura fluirá facilmente. Se você nunca leu nada de Tolkien, penso que O Silmarillion é ótimo começo, porque este livro lhe dará condições de apreciar as inúmeras referências da primeira e segunda eras, feitas em O Senhor dos Aneis. Abaixo, cito alguns trechos para você sentir um pouco da capacidade ilustrativa de Tolkien. Fantástico.

Excertos:

"– Meu destino, ó Rei, me trouxe aqui através de perigos tais como poucos da raça élfica enfrentariam. E aqui descobri o que de fato procurava, mas, ao encontrar, quis possuir para sempre. Pois está acima de todo ouro e toda prata, e supera todas as pedras preciosas. Nem rocha, nem aço, nem as fogueiras de Morgoth, nem todos os poderes dos reinos élficos conseguirão me afastar do tesouro que desejo. Pois Lúthien, sua filha, é a mais bela de todas as Criações do Mundo."



14. J. R. R. Tolkien. O Hobbit (Martins Fontes, 2002)

O Hobbit é muito legal. Ele é leitura leve, muito fácil de acompanhar. Tolkien até dialoga às vezes com o leitor, tendo em vista que muitas crianças o leriam. O que gosto das obras de Tolkien é cada elemento de O Hobbit é fundamental e muito bem utilizado em O Senhor dos Aneis. É uma obra de arte. Vale ressaltar que é sempre emocionante relembrar de Thorin, escudo de carvalho.


15. J. R. R. Tolkien. A Sociedade do Anel (Martins Fontes, 2002)

Sei que não preciso falar muito de O Senhor dos Aneis. Porém, sei que muitos dos caros leitores só assistiram aos filmes. Então, recomendo demais a leitura dos livros, pois são muito melhores que os filmes. Além das referências a eventos de O Hobbit e O Silmarillion, você pode conhecer muito bem cada personagem. Por exemplo, no filme, Merry e Pippin parecem muito bobos e parecem surgir do nada na jornada de Frodo e Sam. A citação abaixo serve para mostrar a grandiosidade destes personagens maravilhosos.

Excerto:

"Sam lançou-lhe um olhar triste. – Tudo depende do que você deseja – interrompeu Merry. – Pode confiar em nós para ficarmos juntos com você nos bons e maus momentos, até o mais amargo fim. E pode confiar também que guardaremos qualquer um de seus segredos – melhor ainda do que você os guarda para si. Mas não pode confiar que deixaremos que enfrente problemas sozinho, e que vá embora sem dizer uma palavra. Somos seus amigos, Frodo. De qualquer modo, é isto: sabemos a maior parte do que Gandalf lhe disse. Sabemos muito sobre o Anel. Estamos com um medo terrível, mas iremos ao seu lado; seguiremos você como cães."


16. J. R. R. Tolkien. As Duas Torres (Martins Fontes, 2002)

Em A Sociedade do Anel, você já sente o drama da escrita de Tolkien. Embora O Hobbit seja bem legal, a primeira parte de O Senhor dos Anéis possui imagens muito mais densas e emocionantes. Então, você começa a ler As Duas Torres e verifica que o Tolkien se supera. Muito bom. O capítulo "O cavaleiro branco" é o melhor para mim.

Excerto:

" É, é isso mesmo disse Sam. E de modo algum estaríamos aqui se estivéssemos mais bem informados antes de partir. Mas suponho que seja sempre assim. Os feitos corajosos das velhas canções e histórias, Sr. Frodo: aventuras, como eu as costumava chamar. Costumava pensar que eram coisas à procura das quais as pessoas maravilhosas das histórias saíam, porque as queriam, porque eram excitantes e a vida era um pouco enfadonha, um tipo de esporte, como se poderia dizer. Mas não foi assim com as histórias que realmente importaram, ou aquelas que ficam na memória. As pessoas parecem ter sido simplesmente embarcadas nelas, geralmente seus caminhos apontavam naquela direção, como se diz. Mas acho que eles tiveram um monte de oportunidades, como nós, de dar as costas, apenas não o fizeram. E, se tivessem feito, não saberíamos, porque eles seriam esquecidos. Ouvimos sobre aqueles que simplesmente continuaram nem todos para chegar a um final feliz, veja bem; pelo menos não para chegar àquilo que as pessoas dentro de uma história, e não fora dela, chamam de final feliz. O senhor sabe, voltar para casa, descobrir que as coisas estão muito bem, embora não sejam exatamente iguais ao que eram como aconteceu com o velho Sr. Bilbo. Mas essas não são sempre as melhores histórias de se escutar, embora possam ser as melhores histórias para se embarcar nelas! Em que tipo de história teremos caído?"


17. J. R. R. Tolkien. O Retorno do Rei (Martins Fontes, 2002)

Terminando com chave de ouro, O Retorno do Rei. Que coisa bela! Pensei que era difícil Tolkien fazer algo melhor do que a As Duas Torres. Estava enganado. O Retorno do Rei é muito bom. Muito emocionante. Todos os personagens têm o seu desfecho. Há muita coisa que o filme não mostra. Muita mesmo. Por favor, se você quer ótima para leitura de ficção para 2018, e ainda não leu Tolkien, faça esforço para comprar estas obras. Você não se arrependerá.

Excerto:

"Outros males existem que poderão vir; pois o próprio Sauron é apenas um servidor ou emissário. Todavia não é nossa função controlar todas as marés do mundo, mas sim fazer o que pudermos para socorrer os tempos em que estamos inseridos, erradicando o mal dos campos que conhecemos, para que aqueles que viverem depois tenham terra limpa para cultivar. Que tempo encontrarão não é nossa função determinar." Gandalf

Que Deus abençoe você em 2018. Boa leitura para a glória de Deus.