sexta-feira, abril 28, 2017

O que a "nossa" Confissão de Fé assembleiana não abordou





Recentemente me achei pensando (e ainda estou com tal pensamento em mente) escrever , depois de tantos anos, acerca das eleições da CGADB neste ano, que poderia talvez ser classificada como " A Eleição dos 10 mil Fantasmas", que revela algo que tem sido ventilado por este blog e por outros há quase 10 anos. O charco de lodo fétido e imundo que administrativamente nossa convenção se tornou, e que nada contribui para o bem-estar da igreja Assembleia de Deus no Brasil. Todavia, a noticia de nossa recém divulgada Confissão de Fé assembleiana¹ merece destaque especial, que acaba por resvalar também nesta questão, e que abordaremos agora.

A confissão em Si.

Diferentemente do que o leitor pode pensar, não me refiro aqui à doutrina arminiana adotada pela Confissão no que tange à salvação. Na verdade, eu concordo de bom grado com um bom percentual do que foi dito, assim como discordo em 100%  com algumas linhas, e ainda tenho cerca de 100% de incerteza do que realmente queria ser dito em outras duas. No  que tange à estrutura da predestinação o estilo da Confissão é um arminanismo mais "Wesleyano" do que "Clássico", quase sendo um amálgama dos dois, porém de maneira geral a opinião teológica desse assunto foi bem expressa; se esta faz jus às declarações bíblicas a história é outra. 

No geral, a Confissão de Fé (chamada oficialmente de declaração de fé) está muito boa no que tange a uma expansão do antigo credo assembleiano, e abraço tais doutrinas de coração, ainda que eu não seja tão dogmático no que tange a antropologia (tricotomia X dicotomia), e abrace com alegria e firmeza o dispensacionalismo pré-tribulacionisa, não teria tanto problema em permitir um dispensacionalismo mid-tribulacionista (ainda que popularmente os assembleianos adotem um modelo dispensacional parcial-tribulacionista²). Mesmo assim, a Confissão aborda de maneira sábia e biblicamente saudável tais questões. a doutrina do Batismo com o Espírito Santo está bem definida nos moldes assembleianos clássicos, o que fortalece nossa identidade pentecostal (ainda que haja certas divergências no meio pentecostal supra-assembleiano quanto a evidência física inicial).

O que faltou à Confissão.

A Confissão, no que tange a doutrina da igreja, dá um bom resumo sobre a natureza teológica da igreja, como Corpo Místico de Cristo. Porém, praticamente NADA foi dito acerca da base neotestamentária para o governo de Igreja. No capítulo XVI, Sobre a Forma e Governo da Igreja, nada é realmente dito acerca da estrutura em si,  Afinal, qual o modelo eclesiológico oficial das Assembleias de Deus?  Episcopal, presbiteriano, congregacional? Apenas a descrição dos títulos de oficiais bíblicos e sua explicação não é suficiente, a  confissão chega a afirmar que a estrutura neotestamentária, ainda que existente, é rudimentar!Como os oficios ministeriais, na prática ministerial  assembleiana funcionam, é algo bem mais complexo e que urgentemente precisa de algo mais "rudimentar"É fato que a assembleia de Deus se originou do meio Congregacional batista, modelo este, que vejo hoje de maneira geral como o ideal para o meio assembleiano e bem mais fundamentado nas Escrituras, porém  com o passar dos anos, acabou sendo menosprezado e esquecido por muitos, e o resultado foi a adesão um sistema piramidal destituído de base bíblica sólida, e mantido pela ótica e ambição humana³. O pior de tudo é que esse deslize histórico encontra até mesmo espaço em nossa Confissão, que agora inventou um novo ofício eclesiástico: O de "Cooperador". A Confissão nada mais fortalece tal modelo irreal.

Não se pode ignorar a falta desse assunto em nossa Confissão, pois ele realmente é nevrálgico: Um firme biblicismo sobre a Ordem da Igreja. Um dos grandes males da Assembleia de Deus e que muito pesa na própria CGADB é a estrutura eclesiástica assembleiana, governada através de caciques e generais, preocupados apenas com o status quo e seu império particular.  

O que nos falta agora.

É de máxima urgência que a assembleia de Deus retorne ao  modelo congregacional de onde se originou, é necessário uma participação da igreja local como igreja genuína e importante. deve-se prioriza os interesses do reino de Cristo e o bem-estar da igreja, não o mero poderio de pastores. Uma Convenção não somente de pastores, mas de igrejas, que procuram edificar-se mutualmente e expandirem o Evangelho de Cristo, fundamentada nas escrituras e com um coração regenerado e sincero. O que temos hoje é cada vez mais a entrada da Teologia da Prosperidade e neopentecostalismo em arraiais assembleianos (doutrinas que não receberam a mínima atenção e reprovação em nossa Confissão), que só servem para beneficiar quem as promove e enganar os incautos, cada vez mais a genuína heresia entre em nosso meio, mas pouco realmente é feito para combater tal perniciosidade como eclesialmente se deveria. Diante disso, temos doutrinas perniciosas, pastores despreparados, às vezes até mesmo não-vocacionados, muitas vezes até ímpios e impostores com estrada pavimentada e caminho cada vez mais em abertos em nossas convenções, que procuram simplesmente o poder. 

O que devemos fazer.

Não se deterá esses tais combatendo o calvinismo. A  bem da verdade, nem o arminianismo poderá impedir algo que cada vez mais se deflagra em uma instituição de sobremaneira e em muitos lugares, espiritualmente viva, mas institucionalmente falida, alimentada por uma estrutura eclesiástica não bíblica. São essas coisas que verdadeiramente são as inimigas da Assembleia de Deus, são essas coisas que devemos realmente combater. E que Deus nos ajude.

AMÉM!

Soli Deo Gloria


Notas:

1. a declaração de fé pode ser encontrada e lida gratuitamente através do seguinte link: https://teologiapentecostal.blog/2017/04/27/declaracao-de-fe-das-assembleias-de-deus/.

2. A teoria do Arrebatmento Parcial, a groso modo, diz que nem todos os crentes genuinamente salvos serão arrebatados, mas somente os que estiverem "vigiando" em Cristo. Talvez tal visão seja até mais coerente com o arminianismo do que o Pré-tribulacionaismo.

3. Tratei acerca da origem do moderno sistema assembleiano em um artigo anterior, disponível no blog teologia pentecostal (acesse clicando aqui). No artigo em questão, tive preferência pelo modelo presbiteriano, porém ao analisar mais a fundo as escrituras quanto a história, vi que o modelo congregacional é o mais saudável para a Assembleia de Deus, tanto bíblica quanto historicamente.

segunda-feira, abril 17, 2017

"Fast-Theology"

Na era do fast-food1, já existe a denúncia de uma fast-science2. Contudo, tenho presenciado o surgimento de uma fast-theology3, marcada pelo mesmo mal das outras tantas “fast”: mediocridade, péssima qualidade, superficialidade e bizarrices caricaturais.
Os novos cursos são: teólogos de youtube, bacharelado em facebook e especialização em twitter – dedos frenéticos e irresponsáveis produzindo palavras em massa e sem dizer absolutamente nada que contribua para alguma coisa, indo do nada para lugar nenhum.
Fazem-no, ainda, de maneira ofensiva, desrespeitosa e caricaturada, extremamente superficial e ignorante; bagunçando o esforço para o amadurecimento da produção teológica no Brasil. Além disso, buscam um sectarismo infantil e irresponsável – infundado e incompatível com o Evangelho.
Parece que a síndrome da produção em massa que afeta as graduações no Brasil, por meio de um fordismo científico, tem se manifestado visivelmente no modo como muitos têm se proposto a fazer teologia dentre os crentes confessionais. Há boa quantidade de teses e artigos absurdos que dariam uma bela fogueira, pelo menos quando alguém tem o esforço de produzir nestes gêneros – e não se limita a socar seus teclados, como um primata, produzindo uma série de palavras e pensamentos desconexos em blogs e outros meios sociais da vida.
A meditação, o aprofundamento teológico e o desejo saudável de glorificar ao Senhor e contribuir para o amadurecimento da igreja, aparentemente, abandonaram o coração de muitos. E não somente de jovens, mas de muitos “marmanjos” que deveriam dar exemplo – inclusive de ditos seminaristas e pastores que, em vez de utilizar o potencial das redes sociais para uma divulgação proveitosa e robusta do Reino de Deus, têm se portado de maneira insuportável nas mesmas.
Essa superficialidade de estudo e de absurda “produção” tem uma tendência injustificada para a crítica ou o debate de baixo nível, também conhecido como “baixaria virtual”: são comentários ofensivos que não contribuem para esclarecer posição teológica nenhuma, nem muito menos para criticar posições contrárias.
Primeiramente, não serve para esclarecer a posição a qual se tenta defender, porque é superficial; de maneira pobre, explica o que todos já sabem; na maioria das vezes, demonstra desconhecimento total acerca da própria posição que defende regado a uma bizarra ignorância Escriturística – quando alguém ao menos se preocupa ou lembra da existência das Escrituras.
Em segundo lugar, são inúteis para refutar alguma coisa porque são escritos caricaturados que nem ao menos conseguem motivar teólogos sérios a apresentar alguma resposta ou comentário, uma vez que eles mesmos não conseguem se identificar com a posição criticada, no máximo são escritos abarrotados de “ad hominem” e que pretendem tornar a porta do céu mais estreita do que de fato ela o é: amaldiçoando crentes, desrespeitando crentes mais velhos, rompendo a irmandade concedida por Deus no sacrifício de Cristo – uma verdadeira barbárie entre ditos crentes.
Penso que os envolvidos nesse circo deveriam estar envergonhados com o espetáculo grotesco que têm protagonizado perante os ímpios aos quais deveriam estar pregando a Cristo, e testemunhando de um compromisso sério com a Palavra de Deus, bem como de preocupação e amor para com a irmandade dos crentes, simplesmente por meio de uma maneira profunda e comprometida de se fazer teologia.
Discordâncias são saudáveis quando implementadas com respeito, amor e sem sacrificar o bebê junto com a água suja da banheira; sem amaldiçoar nenhum crente remido por Cristo ao fogo eterno por ser dispensacionalista, cessacionista, continuísta, pentecostal, amilenista ou qualquer outra posição que é expressa por servos de Cristo e que não criam nenhuma celeuma ou agressão ao Evangelho do Senhor Jesus Cristo, como alguns conseguem bizarramente inventar.
Recomendações e advertências bíblicas acerca do modelo de comportamento cristão como em 2Tm 2:24-26, Ef 4:1-3, 1Pe 3:8-16, bem como da seriedade e consequências de tais comportamentos em Mt 5:21-23, dentre tantas outras, foram removidas das Bíblias de tais homens. Esses textos testemunham contra os que assim têm agido, os quais manifestam descompromisso para com Cristo e Sua Palavra.
Não estou aqui clamando por um discurso relativista ou covarde, para um estanho imperativo dialogal, onde discordâncias são um crime e nenhuma posição deve ser defendida; ao contrário, que façamos tais debates, mas nos portemos como servos de Deus.
Muitos debates ocorreram entre homens sérios ao longo da história da Igreja e contribuíram muito para o amadurecimento doutrinário do corpo, para uma compreensão mais robusta do próprio Evangelho; mas eram feitos por homens comprometidos com Cristo e com Sua Palavra, maduros em sua teologia; que também o façamos de maneira digna com nossa profissão de fé, evitando o erro dos antigos em seus excessos e buscando proporcionalidade e equilíbrio em nossas ações, guardando energia para o combate aos hereges que se levantam contra o Evangelho e respeitando os irmãos de posições contrárias.
Apelo por respeito e valorização daquele que foi comprado pelo Sangue de Cristo. Oro para que o Senhor devolva a racionalidade e a prudência a tais homens; porque, dentre os que estão comprometidos com a teologia séria, é incontestável que tais pessoas são extremamente insuportáveis e que estão atrapalhando muito mais e contribuindo com absolutamente nada para um ambiente teológico maduro, forte e saudável em nossa pátria, e sendo embaraço e tropeço para a propagação do Evangelho de Cristo.
Que o Senhor tenha misericórdia de nós!

Notas:
*Mui grato ao meu amigo e irmão Nilton Rodolfo pela Revisão e Edição.
1. “Fast-food” significa “comida rápida”.
2. “Fast-science” significa “ciência rápida”.
 cf.https://www.cartacapital.com.br/sociedade/slow-science

3. “Fast-theology” significa “teologia rápida”.

sábado, abril 01, 2017

Jacó Armínio: O Cessacionista



Temos vivido dias turbulentos – tanto no contexto nacional quanto no eclesiástico, em especial no âmbito pentecostal-assembleiano. Além dos problemas políticos, nos deparamos com polêmicas eclesiásticas envolvendo a próxima eleição da CGADB (o que já está quase virando tradição). Há, também, os problemas envolvendo Silas Malafaia e o pastor Paulo Júnior, os quais têm tornado as redes sociais um caldeirão de polêmicas. Todavia, meu foco aqui não é abordar tais polêmicas em particular, mas sim uma que pode ser muito mais duradoura e problemática dentro do contexto assembleiano e pentecostal. Algo que envolve a CPAD, o calvinismo nos arraiais assembleianos e um grupo militante arminiano liderado pelo pastor assembleiano Altair Germano. Busca-se agora resgatar uma suposta "identidade arminiana" que a Assembleia de Deus possui. Por mais zelosa que seja tal militância em prol do arminianismo, a história não é tão simples quanto parece; na verdade, há muita coisa a ser vista e revista.

Tanto arminianismo quanto calvinismo são sistemas teológicos que tocam em pontos nevrálgicos da soteriologia (doutrina da salvação). Ainda que mantenham perspectivas diferentes em alguns pontos de doutrina, ambos devem ter seu legítimo lugar dentro do espectro protestante. Porém, é óbvio que tanto o arminianismo (o qual é subdividido em clássico e wesleyano) quanto o calvinismo (que pode ser subdividido em supralapsário, infralapsário, amiraldiano ou compatibilista) compartilham, pelo menos no sentido histórico do termo, de um ponto de vista comum: o cessacionismo. Com Jacó Armínio, criado dentro do cenário das igrejas reformadas holandesas, a situação não é diferente.

Não era o foco de Armínio (como foi posteriormente o de John Owen) tratar sobre Quakers e revelações particulares. Contudo, em sua obra recentemente publicada pela CPAD, o teólogo holandês trata acerca da Perfeição das Escrituras quase nos mesmos moldes da Confissão de fé de Westminster (na época, ainda não publicada):

"Uma vez que iniciemos a defesa dessa perfeição [da Escritura] contra inspirações, visões, sonhos e outras coisas novas e entusiásticas, afirmamos que, desde a época em que Cristo e seus apóstolos peregrinaram pela terra, nenhuma inspiração de qualquer coisa necessária para a salvação de qualquer indivíduo ou da igreja foi feita a nenhuma pessoa ou congregação de pessoas, coisa essa que não esteja, de uma maneira plena e extremamente perfeita, contida nas sagradas Escrituras."[1]


Na mente reformada de Armínio, as Escrituras não abriam espaço para novas revelações ou manifestações carismáticas (chamadas por ele pelo termo comum da época, "coisas entusiásticas"[2]) – pensamento comum da época antes do Movimento Pentecostal.

E aqui chegamos à raiz do problema: o que o pastor Altair Germano e outros militam, além de expurgar a literatura calvinista da CPAD, é buscar preservar e manter a suposta "identidade arminiana" da Assembleia de Deus. Preservando a identidade que só depois de 100 anos de fundação alguns setores da denominação parecem querer preservar;  sendo que a CPAD somente agora publica as obras do fundador do sistema teológico que leva seu nome. Não é de se estranhar tal falta de atenção ao arminianismo clássico na Assembleia de Deus, que contou com alguns calvinistas desde seus primórdios[3]. A identidade assembleiana não é simplesmente arminiana, mas sim pentecostal. Não é a soteriologia, mas a doutrina do batismo com o Espírito Santo e a doutrina da atualidade dos dons do Espírito que nos definem.

O arminianismo, bem como o calvinismo, nasceu em um ambiente cessacionista, e assim o arminianismo permaneceu por muitos anos (mesmo depois de John Wesley). Há muitos arminianos que são tradicionais e rejeitam tanto o calvinismo quanto o pentecostalismo. Afirmar que a identidade assembleiana depende da doutrina arminiana é não entender realmente em que um pentecostal se distingue dos outros cristãos.

A Assembleia de Deus, diferente de sua prima norte-americana, nasceu dentro de um contexto batista, de uma igreja que foi sustentada por muitos anos pela Southern Baptist Convention, primariamente calvinista. O pentecostalismo recebeu influências do dispensacionalismo, o qual, por sua vez, teve origem entre mestres calvinistas[4]. Ser arminiano e dispensacionalista não faz de um cristão um pentecostal, ainda que um pentecostal em geral seja arminiano (e também dispensacionalista). A doutrina pentecostal tem verdadeiro impacto na pneumatologia e eclesiologia, o que dá seu diferencial e identidade própria. Um pentecostal não procura ser original nas doutrinas protestantes clássicas, como acertadamente diz  um dos teólogos mais importantes do início da assembleia de Deus americana, Daniel W. Kerr:

"Temos, portanto, tudo quanto os outros receberam, e recebemos mais essa verdade. Vemos tudo quanto eles veem, mas eles não veem o que nós vemos."[5]

O grande diferencial da fé pentecostal é justamente enfatizar uma verdade negligenciada dentro da igreja: o revestimento de poder e a atualidade dos dons espirituais em um vibrante ministério do Espírito na vida do Corpo de Cristo. Nesse aspecto, tanto o arminianismo quanto o calvinismo podem encontrar espaço.

É bem verdade que a assembleia de Deus no Brasil é tradicionalmente arminiana, mas durante 100 anos ela nunca foi confessionalmente arminiana.  O que acontece é que, com o aumento de calvinistas dentro da assembleia de Deus (como nunca visto antes), o que se tem é uma guerra soteriológica, e não de identidade. Se há problema na identidade assembleiana, o problema não deve ser procurado no calvinismo, mas em outros fatores importantes, alguns dos quais já foi ventilado pelo autor deste blog e por outros irmãos da fé, inclusive pelo próprio pastor Altair Germano.

O propósito deste artigo é apenas criticar a atitude combativa e desnecessária vista em especial pela pessoa do amador pastor Altair, o qual muito já contribuiu em outras áreas para a fé pentecostal, mas que neste caso em particular, se afunda em uma controvérsia desnecessária e infantil, uma cruzada que não alimenta um espírito irênico no cristianismo protestante ortodoxo, erra o alvo e ataca quem não se deve atacar e fere quem não deve ser ferido.

Mas e quanto a visões teológicas distintas que autores não pentecostais promulgam contra a fé pentecostal, como John Macarthur e R. C. Sproul, serem publicadas pela editora confessional? A resposta a isso não é difícil, porém exige uma atenção maior, que não se dará neste, mas em outro artigo. O que se pode dizer simplesmente é que não há diretamente em Armínio uma conexão com a fé pentecostal. Argumentar em prol do arminianismo não é defender, de maneira sinônima, a fé pentecostal. Armínio, afinal, nunca defendeu a atualidade dos dons, e ao que parece, nunca pretendeu fazê-lo.

Soli Deo Gloria.

Notas:

1. ARMÍNIO, Jacó. As Obras de Armínio (Vol. II). Tr. Degmar Ribas. Rio de Janeiro: CPAD, 2015, p.23.
2. Pode-se tentar argumentar que Armínio não proíbe certa manifestação espiritual, desde que esta esteja em harmonia com  a Escritura. Porém, isso não é o mesmo que argumentar acerca da atualidade dos dons como defendido pela fé pentecostal. As manifestações espirituais aqui são vistas mais como exceção do que como regra. Na verdade, a própria confissão de Westminster, assim como Armínio, sujeita qualquer experiência, ou "espíritos particulares" (na tradução brasileira "opiniões particulares") a se sujeitarem à Bíblia. Assim como a confissão, Armínio quer defender a Escritura como suprema e suficiente em questões doutrinárias e da salvação apontando-a como a fonte da teologia, em contraste com a suposta autoridade papal ou qualquer manifestação espiritual. Tal tipo de opinião foi também defendida por puritanos; entre eles, destaca-se Richard Baxter, por exemplo. Para mais informações nesta questão, o leitor pode consultar a obra de Wayne Grudem, O Dom de Profecia: do Novo Testamento aos dias atuais.
3. Falei acerca disso em outro artigo, disponível no seguinte link: http://teologiapentecostal.blogspot.com.br/2014/06/as-origens-batistas-da-assembleia-de.html.
4.Disponível em: http://www.chamada.com.br/mensagens/calvinismo_dispensacionalismo.html.
5. Citado em MCGEE, Gary B.Panorama Histórico in: Teologia Sistemática: uma perspectiva pentecostal. Tr. Gordon Chow.Rio de Janeiro: CPAD, 1996. p.17.

quarta-feira, março 15, 2017

Prepare-se para a exclusividade matrimonial


Existem muitas mulheres no mundo. Inteligentes, belas, atraentes… Mulheres que são capazes de levá-lo a sonhar alto. Bem alto. Mulheres que podem fazer seu coração acelerar, apenas com um olhar. Super poderosas, têm a habilidade de mudar vidas. Qual de nós não conhece o poder transformador do sorriso de uma bela garota? Dinheiro, conhecimento e diversão não proporcionam o prazer de sentir-se importante... amado.

Quando trata-se de amor, nós homens precisamos agir com bastante seriedade. Não apenas os nossos sentimentos mais profundos envolvem-se nisto; e, sim, também, o coração de uma linda mulher. Embora pareça simples, agir seriamente com mulheres não é fácil. Tendemos a ser egoístas. Tendemos a pensar no que é bom para nós, em nossos desejos e ponto final. Facilmente, parece não haver espaço para considerarmos o que elas pensam. Às vezes, fazer a pergunta “será que há interesse por parte dela também?”, para nós mesmos, é inconcebível.

Crescemos em uma cultura que prega o hedonismo. Nesta, a máxima é: “O meu prazer é tudo de que preciso.” Ensinam-nos que nosso prazer deve ser ilimitado e que não há regras para que possamos obtê-lo. Há algum tempo, li manchete sobre a famosa atriz Scarlett Johansson, segundo a qual ela teria declarado que “casamento monogâmico não é natural”. Antes de apontarmos para a ideia animalesca acerca do homem, envolvida nesta declaração, precisamos reconhecer que não estamos imunes a este tipo de pensamento. 

Infelizmente, grande parcela de nós homens já teve contato com pornografia. Desde os contaminados em pequena escala aos afetados em grande escala, todos já fomos confrontados com suas mentiras; em especial, com a de que temos de viver segundo nossos instintos. Tal pensamento leva ao perverso ensino desta maldita professora: “Quanto mais, melhor.” Por conseguinte, muitos acreditaram na necessidade de poder contar grande número de ex-namoradas. O que nos proporcionaria a possibilidade de olharmos para o espelho e dizer: “Sou 'pegador'.”

Se vivermos segundo a carne – parte de nosso ser que envolve nossa pecaminosidade –, teremos sérios problemas. No âmbito da vida amorosa, de que maneira jovens pervertidos lidariam com a multiplicidade de belas garotas no mundo? Segundo a lógica pecaminosa, cada faísca de paixão em nosso coração deve ser satisfeita. Dessa forma, não importa se somos namorados, noivos ou maridos de alguma mulher; havendo o desejo, nenhum relacionamento é tão sério que não possa ser desfeito.

Felizmente, o Criador da beleza e do prazer estabeleceu outro caminho. Deus estabeleceu outra maneira de lidarmos com nosso forte desejo sexual. Diferente do que o pai da mentira ensina ao mundo, o Senhor Deus não criou os impulsos sexuais para satisfação egoísta. Segundo as Escrituras Sagradas, o sexo foi criado para a união profunda de homem e mulher, de modo que eles se tornem “uma só carne”, dentro do contexto do santo matrimônio. O casamento é o pacto que tanto exige a manutenção do compromisso exclusivo com o cônjuge quanto define-o, claramente, como o único alvo de nossos esforços sexuais.

Para Deus, a exclusividade do relacionamento entre homem e mulher não é algo inóspito, sem prazer ou chato. Na verdade, é apenas no santo matrimônio que homem e mulher podem experimentar a liberdade e a beleza de ser uma só carne. As palavras inspiradas do rei Salomão devem ecoar constantemente em nosso coração:

“Bebe a água da tua cisterna e das correntes do teu poço. Derramar-se-iam por fora as tuas fontes, e pelas ruas, os ribeiros de águas? Sejam para ti só e não para os estranhos contigo. Seja bendito o teu manancial, e alegra-te com a mulher da tua mocidade, como cerva amorosa e gazela graciosa; saciem-te os seus seios em todo o tempo; e pelo seu amor sê atraído perpetuamente” (Provérbios 5.15-19).

Se você é solteiro, prepare-se para o casamento. Isso envolve estar clamando a Deus por misericórdia e sabedoria para manter-se puro e para saber escolher uma mulher temente a Deus, a qual complementará sua caminhada rumo à eternidade. Ademais, preparar-se para o casamento exige a mortificação da carne e a negação das mentiras do diabo. Não trate o relacionamento amoroso como esporte. Lembre-se de que, dentre as inúmeras mulheres maravilhosas que existem na terra, Deus o chama para dedicar-se a uma apenas: sua futura esposa. Tal dedicação deve ser constante, por toda a vida. Como escreveu Douglas Wilson:1

“[…] Mais adiante no capítulo cinco de Efésios, Paulo diz aos maridos que amem a esposa como amam seu próprio corpo. A palavra cuidar nessa passagem significa literalmente manter aquecido. Consequentemente, um dos deveres fundamentais envolvendo o papel do marido é que ele mantenha sua esposa aquecida. Quando isso é feito, o resto do lar é aquecido. Mas como ele pode mantê-la aquecida? Perceba que nosso texto diz que devemos andar em amor. Uma esposa não se mantém aquecida no seguro amor de um marido se ele é inconstante em tal amor. Se é grosseiro ou a ignora, mas vez por outra mostra-se terno, não está andando em amor. O tipo de amor que Paulo exige aqui é constante. Ser um marido piedoso é ser um marido constante.”

Que Deus seja glorificado. 




Referência:

1. Douglas Wilson, em Reformando o Casamento: A Vida Conjugal Conforme o Evangelho. Centro de Literatura Reformada (CLIRE), p. 10-11.

sábado, janeiro 14, 2017

Internet: uma péssima companhia para momentos em família

É sexta-feira. O shopping está lotado. Depois de um bom tempo, finalmente, eles encontram uma mesa disponível. Marido, esposa e seus três filhos sentam-se próximos uns aos outros – pelo menos, aparentemente.

O líder do lar dá dinheiro para a esposa comprar o lanche; o caçula e a filha do meio vão juntos. O clima está perfeito para conversar com a primogênita. Por que não perguntar como anda o coração da filha? Ou por que não tratar das dificuldades na escola? Ter uma conversa descontraída e rir um pouco com a filhota também poderia ser uma boa pedida. Porém, uma tragédia acontece: o pai da família liga o tablet e começa a navegar na internet. Enquanto o pai está fixado em notícias irrelevantes, a filha fica olhando para o horizonte. Não há sequer uma palavra trocada entre os dois.  

A filha do meio retorna com um milk shake. O silêncio é quebrado por poucas conversas entre as irmãs. Para não dizermos que a interação do pai é zero, de vez em quando, ele toma um pouco do milk shake, sem tirar os olhos da tela do dispositivo eletrônico.

Os dois membros da família que faltavam retornam. O filho senta-se de frente para o pai. Entretanto, ironicamente, os dois não trocam nenhum olhar. O celular e os fones de ouvido roubam, completamente, a atenção daquele.

O passeio que deveria ser um momento de lazer familiar, infelizmente, tornou-se um momento lastimável.

                                                                             *

A cena descrita acima é verídica. Enquanto arriscava-me em comer um sushi (daqueles inteiramente crus) na companhia de minha noiva, acabei observando um pouco a família que estava perto de nós. Sinceramente, isto me deixou muito angustiado. Geralmente, os jovens e adolescentes são os mais antissociais nos passeios em família – o que também é um problema sério. Contudo, neste episódio de ontem, o pai era o pior de todos. Ele não tinha nem “moral” para repreender o filho atolado na internet…

Se não combatermos o vício no mundo digital (incluo-me nesta luta), nós e nossas famílias sofreremos (se é que já não estamos sofrendo) terríveis consequências.

Que Deus nos abençoe de modo que experimentemos as bênçãos descritas no Salmo 128:

"Bem-aventurado aquele que teme ao SENHOR e anda nos seus caminhos. Pois comerás do trabalho das tuas mãos; feliz serás, e te irá bem. A tua mulher será como a videira frutífera aos lados da tua casa; os teus filhos como plantas de oliveira à roda da tua mesa. Eis que assim será abençoado o homem que teme ao Senhor. O Senhor te abençoará desde Sião, e tu verás o bem de Jerusalém em todos os dias da tua vida. E verás os filhos de teus filhos, e a paz sobre Israel."

quinta-feira, janeiro 12, 2017

Manuscritologia do Novo Testamento (Resenha)

No ano de 2014, o mercado editorial brasileiro recebeu uma obra que trata de um assunto bem pouco explorado no Brasil: O estudo da manuscritologia, ou crítica textual bíblica; em especial no que tange ao exame do Novo testamento. Em Manuscritologia do Novo Testamento: História, Correntes Textuais e o Final do evangelho de Marcos, o pastor presbiteriano Paulo Anglada explora questões difíceis e técnicas em um linguajar simples e direto, sem perder a erudição e muito menos a ortodoxia protestante de linha Reformada, com isso o leitor é desafiado a lidar com a intrincada história dos manuscritos que compõem o Novo Testamento.

           
  O livro do Reverendo Anglada evita o tecnicismo constante nessa área, o que geralmente desestimula os leitores em geral e até mesmo seminaristas. Após breve introdução, o primeiro capítulo lida com a História do Texto, lidando com as mais importantes descobertas de manuscritos dos quatro primeiros séculos, como também com o surgimento do primeiro texto impresso, feito pelo humanista Erasmo de Roterdam e publicado em 1516 e a sua “rival”, a Poliglota Complutesiana, além das edições subsequentes feitas por vários homens como Robert Stephanus, Theodore Beza, os irmãos Elzevir, o que veio a ser chamado de Textus Receptus. Após esse período, surgiram outros textos, que cada vez mais se afastaram do Textus Receptus até a publicação do Texto de Westcott e Hort, que se baseou em dois manuscritos provenientes de uma região: O Egito. Tais manuscritos em muito se diferiam dos manuscritos usados por Erasmo, que em geral representavam a maioria dos manuscritos gregos do Novo testamento, que formavam o tipo de Texto Bizantino/Siríaco. Com isso, surgiram as mais variadas traduções, todas adotando o texto de Westcott e Hort como base (que depois foi aperfeiçoado através dos trabalhos de críticos textuais como Kurt Aland e Bruce Metzger). Por fim, o primeiro capítulo fecha com as reações modernas do defensores do Textus Receptus: existem duas alas, a erudita e a popular. Da primeira, há nomes como Edward Hills e Theodore P. Letis, e da segunda, mais fundamentalista e radical, nomes como D. A. Waite e Peter Ruchnan. Outra reação aos textos críticos de Westcott/Hort (atualmente representado pelas modificações de Ebheard Nestle e Kurt Aland) foi o surgimento da teoria do Texto Majoritário moderno, com proponentes como Zane Hodges, Wilbur Pickering e Jakob Van Bruggen.
            
Nos demais capítulos há uma breve análise de cada corrente textual existente. Cada capítulo lida com as teorias textuais a partir de análise das obras de seus representantes mais respeitados: os defensores do Textus Receptus (capítulo 2), os defensores do texto Eclético/crítico (capítulo 3) e os defensores do Texto Majoritário, do qual o próprio Anglada é um defensor (capítulo 4). Por fim, há um estudo detalhado sobre o final do evangelho de Marcos, rejeitado pelos críticos Textuais modernos como inautêntico (capítulo 5). 
            
A tese de Anglada é clara: “Deus não confiou o texto das Escrituras aos caprichos da história. Ele determina cada acontecimento da história com vistas a consecução de seus propósitos eternos – inclusive, e especialmente, aqueles que dizem respeito à preservação da sua Palavra” (p. 14). Anglada encontra dificuldade com as teorias de Westcott e Hort, mostrando que o pressuposto desses eruditos vai contra as evidências de transmissão textual. Sendo que um dos grandes problemas é que tais críticos veem a Bíblia como um livro comum, e sua transmissão como normal, assim como elaboraram teorias naturalistas acerca do texto a partir de dois manuscritos extremamente conflitantes entre si (só nos Evangelhos são mais de 3.000 vezes). A crítica de Anglada, detalha no capítulo 3, é forte e certeira contra a corrente textual que domina os Textos gregos do Novo Testamento e as traduções modernas. O capítulo 4 se distingue de certa forma dos demais, pois ao analisar a Corrente Textual que defende o chamado Texto Majoritário, nota-se a identificação textual do autor, que nos dá uma excelente definição acerca da visão textual Majoritária:

“A maneira, entretanto, pela qual Deus preserva a Palavra inspirada, não é explicitada na Bíblia, devendo ser concluída por investigação adequada das evidências históricas. Na concepção dos defensores do texto majoritário, as evidências históricas indicam que a preservação do texto do Novo testamento não ocorreu através da preservação sobrenatural dos autógrafos, nem pela inspiração dos copistas, guardando todos eles de erro, nem de uma determinada edição do Textus Receptus, nem em um número não representativo de manuscritos contraditórios provindos de uma única região. Para eles, o texto original foi preservado na grande massa de manuscritos de todos os tipos, procedentes de lugares variados, ao longo dos séculos” (pp.125-126).

            Após tratar sobre os métodos de investigação textual dos proponentes do texto majoritário, o autor também está ciente de alguns problemas relacionados a essa teoria. Por fim, o capítulo 5 trata acerca da problemática envolvendo o chamado “final longo de Marcos”, onde o autor defende com vigor o final tradicional de Marcos, a partir da tradição majoritária. Na conclusão, faz-se uma breve recapitulação do que foi tratado, chegando às considerações finais. Há ainda dois apêndices, o primeiro mostrando a história do Texto Impresso e o segundo apresentando sugestões para pesquisa direcionada a estudantes de bacharelado e mestrado. Dentre as sugestões destacam-se as pesquisas sobre a manuscritologia na Idade média e dentre os puritanos, finalizando, assim, a obra.

- Análise:
           
            A obra de Anglada apresenta uma qualidade impressionante no que diz respeito a uma visão que honra as escrituras, mas não deixa de estar sujeita a críticas em certas afirmações. Vejamos pontos positivos e negativos a seguir.

I. Pontos positivos:

a) Primeira obra publicada no Brasil a defender o texto Bizantino: Em um mercado saturado com obras que defendem a baixa-crítica do novo testamento segundo os padrões de Westcott e Hort, a obra de Anglada é um contra-ponto adequado e equilibrado, dentro de uma perspectiva reformada-confessional, algo raro no Brasil. A maioria das defesas em prol do texto-tipo bizantino são de fundamentalistas, que defendem de maneira implacável o Textus Receptus.

b) Apresentação clara das três perspectivas quanto ao texto do Novo Testamento: o pastor Anglada mostra, de maneira clara e sistemática, as três visões textuais acerca do texto do Novo Testamento: os defensores do Textus Receptus, do texto Eclético e do Texto Majoritário (sendo este último uma atualização da primeira). Em geral, a obras que defendem o texto crítico colocam os proponentes do Textus Receptus e Majoritário no mesmo grupo. Ainda que as semelhanças sejam enormes entre os dois grupos, e haja em certas ocasiões uma cooperação mútua, há diferenças evidentes nas metodologias de cada um. Basta consultar as obras de Frederick Nolan e Edward Hills (que defendem o Textus Receptus) e a visão de Zane Hodges e Maurice Robinson (que defendem o Texto Majoritário em sua configuração moderna) para ver a diferença entre as escolas.

c) Correta diferenciação entre os defensores do Textus Receptus: o autor consegue notar a diferença entre os defensores eruditos moderados do Texto Recebido, como Edward Hills e os de linha radical como D. A. Waite, Peter Rucknahm e Gail Riplinger.  Algo também não diferenciado pelo opositores do Texto tradicional.

d) Excelente crítica quanto à escola histórico-crítica e a produção do texto crítico do Novo Testamento:  O Brasil carecia de uma obra que combinasse tanto questões técnicas quanto uma defesa firme do Texto Grego Tradicional, partida de um erudito que valoriza a piedade cristã e o método histórico-gramatical de interpretação das Escrituras. Com exceção da obra de Wilbur Pickering, o mercado brasileiro está repleto de obras que defendem o método histórico-crítico, dentre os quais se destacam Wilson Paroschi, Kurt Aland, Daniel Wallace e Bruce Metzger.  O livro de Anglada faz uma crítica respeitosa, porém firme, a um criticismo textual que não honra as Escrituras como Palavra de Deus. Só esse motivo já é suficiente para considerar tal obra como importante.

II. Pontos negativos:

a) A Falta de uma análise mais justa acerca da obra de Edward Hills: Anglada faz crer que os defensores do Textus Receptus não analisam as evidências. Mesmo fazendo uma diferença entre os defensores moderados e radicais do Textus Receptus, em sua crítica à corrente textual, ele parece jogar todos no mesmo pacote, mesmo Edward Hills. Ainda que reconhecendo a excelente erudição de Hills (graduado em latim e Phi Beta Kappa da universidade de Yale, bacharel em Teologia pelo Westminster Theological Seminary, mestre em teologia pelo Columbia Theological Seminary e doutor em Crítica textual pela Universidade de Harvard), as críticas que faz a Hills são pungentes:

 “A defesa do Textus Receptus fundamenta-se e é inteiramente explicada pela doutrina da preservação providencial. Entretanto, visto que as escrituras não declaram explicitamente a preservação de um determinado tipo de texto (no caso, do Textus Receptus), o uso da doutrina é muitas vezes abusivo e injustificado. A aceitação das explicações de Hills e de outros proponentes do TR é matéria de pura fé na interpretação que eles oferecem” (Anglada, p.94).

Há muito que se pode dizer em defesa de Hills (e outros defensores do Textus Receptus), que abraça o Textus Receptus como um texto legítimo. Partamos para alguns deles:

a.1) A filosofia cristã de Hills é Reformada e Pressuposicional.

            Como estudante do Westminster Seminary, Hills foi treinado pelo célebre Cornelius Van Till, que defendia uma forma distinta de apologética: A apologética pressuposicional, que ao contrário da clássica ou evidencialista, possui o ponto de partida para uma cosmovisão saudável a pressuposição do Deus Trino como revelado na Escritura, atentando nas proposições nela contidas. No dizer de Hills: “nas escrituras, Deus revela: a si mesmo, não meras evidências da sua existência, não meras doutrinas acerca de si mesmo, não uma mera história de seu lidar com os homens, mas A SI MESMO” (The King James Version Defended, p.4) e ainda: “As escrituras, portanto, são o fundamento da fé. Nelas a revelação de Deus acerca de si mesmo não é obscurecida pelo erro humano” (Believing Bible Study, p.4). Haja vista que as Escrituras declaram claramente que seriam preservadas no passar das eras, de maneira perfeita pelo Senhor (Mt 24.35), o que nos leva a atentar para a preservação divina através da história do texto bíblico, algo que está em sintonia com o que se encontra nas confissões de fé de Westminster, Londres e Savoy. Por isso, o que Hills faz é integrar pressupostos bíblicos (a lógica da fé) com a história do texto, todavia, o faz sem torcer as evidências a seu favor. Pelo contrário, como crítico textual habilitado, Hills mostra que a questão não é entre os que defendem o Textus Receptus de maneira cega e os defensores do Texto Eclético (e até mesmo do Majoritário), com base do estudo científico, mas sim na interpretação que se dá acerca das evidências.
Tratando acerca dos estudos feitos dentro da perspectiva naturalista, Hills comenta: "Há dois métodos de Criticismo Textual do Novo testamento, o método cristão consistente e o método naturalista. Estes dois métodos lidam com o mesmo material, os mesmos manuscritos gregos, e as mesmas traduções e citações bíblicas, mas eles interpretam esse material de forma diferente” (King James Version Defended, p.3) e acrescenta: “Nos estudos bíblicos, na filosofia, na ciência, e em qualquer outro campo do saber devemos começar com Cristo e aí então trabalhar nossos princípios básicos de acordo com a lógica da fé. Este procedimento nos mostrará como utilizar o aprendizado vindo de eruditos não-cristãos de uma forma que nos aproveitemos de seus estudos” (King James Version Defended, p. 114).  Rebatendo a afirmação que isso leva a um agnosticismo intelectual, Hills afirma: “Isso significa que nos tornamos obscurantistas? e perdemos todo o nosso interesse nos estudos textuais do Novo testamento? Nós franzimos o cenho no estudo dos manuscritos do novo testamento e desencorajamo-lo por medo de provar que estamos errados? de modo nenhum! Pelo contrário, congratulamo-nos com a investigação honesta dos documentos do novo testamento, tanto mais que os resultados dos últimos 300 anos de tais estudos, bastante interpretados, apoiaram as reivindicações do Texto Tradicional e do Textus Receptus” (Believing Bible Study, p.214-215).                                                           

a.2) Hills não defende uma visão perfeccionista do Textus Receptus.

Ainda que possa haver uma tendência em Hills de defender o Textus Receptus de forma indiscriminada, ele claramente mostra que não concorda com as emendas conjecturais feitas por Calvino e em especial por Theodore Beza na publicação de seu texto grego. Para ele, o Textus Receptus não se reduz a uma única edição, mas a um conjunto de várias edições que apresentam essencial e substancialmente o mesmo texto, ainda que haja pequenas variações em um lugar e outro. Acerca da presença de algumas variantes textuais, Hills comenta:

“... Deus não revela todas as verdades com igual clareza. Na crítica textual bíblica, como em qualquer outro departamento do conhecimento, ainda há alguns detalhes em relação aos quais devemos nos contentar em permanecer incertos. Mas a providência especial de Deus tem mantido estas incertezas para baixo a um mínimo. Portanto, se acreditarmos na preservação providencial especial das Escrituras e fizermos deste o princípio principal de nossa crítica textual bíblica, obtemos certa certeza, toda a certeza que qualquer homem pode obter, toda a certeza de que precisamos” (King James Version Defended, p.224).
   
a.3) A visão de Hills é Reformada e a estrutura de seu pensamento segue a linha de Cornelius Van Till.

Tanto no Livro The King James Version Defended, quanto em sua obra gêmea Believing Bible Study, Hills deixa claro que, para se abordar o material acerca do criticismo textual, não se apode adotar uma perspectiva naturalista. Aqui vemos a perspectiva da apologética pressuposicional na defesa dos manuscritos do Novo Testamento.

b) Anglada apresenta uma opinião comum acerca de Erasmo e da publicação do texto grego, em especial sobre Apocalipse: O pastor Anglada acaba repetindo alguns mitos acerca do último capítulo do livro de apocalipse no Texto grego editado por Erasmo, onde supostamente o erudito Holandês retraduziu o texto da vulgata para o grego. O grande problema é que não há nenhuma evidência concreta que esse tenha sido o caso, e tal história vem sendo amplamente contestada por alguns estudiosos modernos, juntamente com os chamados “mitos erasmianos”, dentre os quais destacam-se a história da “pressa” em Erasmo de publicar seu texto grego, a história do Comma Johanneum (1 Jo 5.7) no Texto Recebido, os poucos manuscritos utilizados por Erasmo, etc. Tais mitos são analisados detalhadamente por Jeff Ridlle, pastor reformado e estudioso de questões textuais, podendo serem estas lidas com detalhes aqui.

c) A visão do Texto Majoritário não é necessariamente Reformada.

Ainda que colocada como uma posição totalmente reformada e adotada por alguns professores reformados como Jakob van Brueggen, a perspectiva do texto Majoritátio surgiu dentro de um contexto dispensacionalista de alguns professores do Dallas Theological Seminary, como Zane Hodges, William Farstard e Wilbur Pickering. Ainda que tais homens sejam conhecidos por sua piedade e teologia conservadora, a visão que mais se aproxima da perspectiva reformada, e que está de acordo com a confissão de fé de Westminster, é a adotada por Hills.

d) Pouco realmente se dá valor às pressuposições na hora da metodologia do estudo dos manuscritos, fazendo com que a estrutura se assemelhe à da crítica, no que tange à linha de estudos.

Ainda que haja méritos notáveis na posição do Texto Majoritário (que muito se assemelha a posição do Textus Receptus), o método em si acaba por também querer passar uma visão de neutralidade e objetividade científica, e também acaba por tentar, ainda que em menor escala, fazer uma reconstituição do texto original do Novo Testamento em grego. Tal perspectiva passa uma ideia de erudita e agrada a ouvidos acadêmicos, porém não necessariamente está totalmente de acordo com os princípios da Palavra de Deus. O conselho de Hills é precioso aqui: “O criticismo textual do Novo Testamento do homem que crê na inspiração e preservação providencial das Escrituras como verdadeiras difere daquele que não crê assim... o homem que abraça essas doutrinas como verdadeiras é incoerente se ele não as der um lugar proeminente em seu tratamento do texto do Novo testamento, um lugar tão proeminente que faz com que criticismo textual do Novo testamento seja diferente do criticismo de livros antigos, pois se essas doutrinas são verdadeiras, elas demandam tal lugar” (King James Version Defended, p. 3).

- Conclusão:


A despeito de certas incoerências na defesa de Anglada do Texto Majoritário, e a falta de observação nos detalhes concernentes à visão Reformada do Textus Receptus, a obra em si tem muitas qualidades e é uma boa fonte de consulta para seminaristas, professores de escola dominical e pastores - além do público geral. É um alívio editorial em um mercado saturado de obras que promovem o texto crítico.

segunda-feira, janeiro 09, 2017

Vale a Pena Ler: As Crônicas de Olam (Vol. 1 e 2)


É fato um tanto quanto conhecido que algumas das maiores obras da literatura ocidental foram escritas por cristãos ou por pessoas que tiveram formação educacional dentro de uma estrutura de pensamento cristã. Dentre estes clássicos se destacam aqueles de língua inglesa bem conhecidos, como Paraíso Perdido, de John Milton, O Peregrino, de John Bunyan, A Letra Escarlate, de Hawthorne e Moby Dick, de Mellville. Mais recentemente a cosmovisão cristã se fez presente na área da fantasia, a partir de livros como As Crônicas de Nárnia, de C. S. Lewis, e O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien. 

Na língua portuguesa, a história é outra. Ainda que hajam obras magnas com alguns elementos cristãos, uma obra de fantasia com uma perspectiva cristã até tempo atrás era algo bastante improvável. Isso foi até 2011, quando o pastor Leandro Lima adotou o nome autoral de L. L. Wurlitzer e publicou o livro Olam - Crônicas de Luz e Sombras. O livro era uma obra de ficção, de gênero de fantasia, baseando-se na cultura hebraica e escrito partindo de uma estrutura de pensamento cristã. Dois anos depois, Wurlitzer publicou Olam - Crônicas do Mundo e Submundo. Ambas as obras foram publicadas pela Editora Fiel com o selo Tolk Publicações, que se dedica a publicar obras da mesma linha de fantasia. O título sofreu alterações, sendo que passou a ser As Crônicas de Olam: Luz e Sombras e As Crônicas de Olam: Mundo e Submundo. A partir de agora, passemos a analisar ambas as obras, até então publicadas (um terceiro volume é ansiosamente aguardado). Elementos importantes da trama serão notificados com a expressão em inglês Spoiler Alert.

A Trama:

Wurlitzer procura apresentar uma fantasia narrativa, onde um jovem de passado desconhecido e misterioso, Ben, procurando por seu misterioso mestre, Enosh, acaba por se envolver em uma jornada épica para reativar o chamado "Olho de Olam", uma pedra preciosa (que faz parte de um conjunto de pedras chamadas Shoham) que é capaz de repelir seres das trevas, dentre os quais se destacam os Shedins, Nephilins e Oboths. Para isso, Ben, juntamente com seus amigos Leannah, Adin, a bela Tzizah e o Guiborim Kenan, passarão por uma jornada épica que culminará em batalhas explosivas e na própria descoberta pessoal do jovem, também chamado de "Guardião de Livros".

A Obra:

A cultura hebraica permeia todo o livro. Nomes como El, Giborim, Kenan, Ben, Thamam, Saraph e Mashchit são todos de origem semítica e estão presentes na Bíblia, porém não se deve esperar um elemento diretamente alegórico, como no Peregrino de Bunyan ou simbólico, como em Nárnia. Olam segue uma linha bem Tolkeana (a influência do escritor inglês é bastante notável em alguns elementos dos livros), apresenta um mundo imaginário e uma boa história, escrita dentro um padrão ético cristão. As criaturas descritas no livro se assemelham como são descritas no folclore Hebraico. Leviathan e Behemot não são, por exemplo, apresentados como dinossauros, mas, respectivamente, como um dragão mitológico e como uma versão ancestral do Godzilla. Por isso, não se pode tentar encontrar um equivalente exato em cada personagem ou episódio, mas sim atentar para as verdades teológico-espirituais apresentadas no decorrer da trama.

Análise:

Há muitos pontos positivos a se ressaltar nos dois volumes: apesar de ser uma obra de fantasia, percebe-se que foi muito bem escrita no que tange à reflexão teológica. O autor apresenta temas teológicos de forma clara, sem ambiguidade. Ainda que todos os personagens apresentem defeitos e algum nível de corrupção moral (e cometam pecados), nada fica turvo. Não há aqui uma moralidade cinzenta, como vista na obra de George Martin. 

Ambos os volumes apresentam uma qualidade altíssima de boa escrita. O autor, que é doutor em
literatura e teólogo evangélico, apresenta uma qualidade descritiva como poucos escritores desse gênero. Num instante, o leitor consegue visualizar mentalmente cada detalhe descrito por Wurlitzer, tem-se a impressão de estar assistindo a um épico direto de uma tela cinema (não é à toa que uma adaptação cinematográfica já foi ventilada por alguns leitores). O domínio narrativo também se destaca. A trama desenvolve-se de maneira leve e natural, o leitor não sente a necessidade de reler alguma página, pois entendeu bem o parágrafo e ansiosamente procura o seguinte.

Spoiler Alert

(Leia o restante da análise somente após a conclusão da leitura dos dois volumes de As Crônicas de Olam.)


Wurlitzer também conduz uma boa trama de mistério. Afinal, quem é Ben? De onde ele veio? E os outros personagens, quem são? À medida que a narrativa avança, não somente nos perguntamos quem é Ben, mas quem são Thamam, Kenan e Gever? Ainda que muitas respostas sejam esclarecidas no segundo volume, nem tudo está completo, inclusive o passado de Ben. 

Um ponto negativo se encontra às vezes na duração de alguns momentos da trama (a ida de Ben ao Abadom para buscar Thamam, ou melhor, Tutham) no segundo volume, ainda que escrita para o leitor propositalmente se sentir claustrofóbico, cansa em determinados momentos. Outro ponto negativo deve-se a um fator externo que acaba prejudicando um pouco a qualidade interna. Como os dois volumes foram escritos anteriormente por Wurlitzer de maneira independente, o autor precisou reescrever algumas frases e detalhes incidentais da narrativa para o relançamento pela Tolk Publicações, o que não somente atrasou substancialmente a publicação do terceiro volume, como também em alguns poucos momentos, acaba por empobrecer a narrativa. Façamos uma breve comparação aqui do capítulo final do volume 2 (mundo e submundo):

"Ben levantou os olhos e viu quando eu abri a capa que me envolvia. Ele subiu o olhar e enxergou um colar no meu pescoço. E nele, dependurada uma pedra. Dela emanava um forte brilho branco"  (Tolk Publicações).

"Ben levantou os olhos e viu quando eu abri a capa que me envolvia. Ele subiu o olhar e enxergou um colar no meu pescoço. E nele, dependurada uma pedra branca. Dela emanava um brilho capaz de afugentar as trevas" (Agathos Publicações).

Ainda que em ambas as edições a narrativa permanece substancialmente a mesma, a versão da Tolk apresenta um leve anticlímax quando comparada com a versão original do autor - uma curiosidade interessante é que ambos os volumes apresentam semelhanças quanto à produção gráfica. O volume 1 da Tolk/Agathos apresenta um certo relevo na capa, e o papel é do tipo mais popular. Já o volume 2 da Tolk/Agathos não apresenta relevo algum, mas o papel é mais fino e de maior qualidade.

Conclusão:

A obra de Wurlitzer contém: narrativa envolvente, escrita detalhista e imaginativa. Adiciona-se um volume precioso na estante de grandes escritores cristãos. Cada página vale a pena. A obra caminha a passos largos para ficar nas fileiras dos clássicos da fantasia e Fantasia Cristã, faltando agora apenas ser posta no lugar certo com os atos derradeiros do Guardião de Livros.


Soli Deo Gloria

sexta-feira, janeiro 06, 2017

Três Maneiras de Não Lidar com Disciplinas Espirituais

Li o seguinte texto a partir de um tweet de David Platt. Creio que ele é bastante pertinente para nossas resoluções de ano novo. O original, escrito por David Burnette, pode ser acessado aqui. Boa leitura. Que Deus nos abençoe e ajude.
                                                                                
                                                         ***
Embora Cristãos devam praticar as disciplinas espirituais sempre, muitos escolhem reanimar seus esforços no início de um novo ano. Um plano de leitura bíblica, um guia de oração, uma estratégia para limitar a rede social, ou um esforço intencional para compartilhar o evangelho mais - tudo isso são coisas boas. Mesmo que você não goste de fazer resoluções de ano novo, esperançosamente você está planejando continuar a prática de disciplinas espirituais no próximo ano. Qualquer que seja o caso, este [texto] ajuda a buscá-las na maneira correta. 

Quero oferecer três cuidados em relação a três modos de abordar disciplinas espirituais. Há muito mais a ser dito sobre este tópico, mas espero que esses cuidados sirvam como encorajamentos para buscar a semelhança a Cristo de maneiras que são bíblicas e sábias.

1. Não pratique disciplinas espirituais para estar quite com Deus

Nenhuma quantidade de oração, leitura bíblica, testemunho ou jejum - ou qualquer outra disciplina - tem o poder de mudar sua posição diante de Deus. Aqueles que estão em Cristo são declarados justos e não podem ser separados do amor de Deus (Romanos 8.31-39). Se esquecermos da graça de Deus em nos preservar, então o resultado será exaustão, desencorajamento, ou alguma forma de justiça por obras. Lutar para crescer em disciplinas espirituais é importante, com certeza, mas isso não pode ser o tipo de luta que provém de medo ou ansiedade. Disciplinas espirituais devem fluir de nosso amor por Aquele que deu seu próprio Filho para nos resgatar enquanto ainda éramos pecadores (Romanos 5.8). Isto colocará vento em suas velas espirituais para relembrar que a misericórdia salvadora de Deus tem sido abundante sobre você, um pecador merecedor de seu julgamento, e que a habilidade de buscar disciplinas espirituais em si mesma é um dom de Deus.

2. Não evite disciplinas espirituais por medo de legalismo

Enquanto disciplinas espirituais podem se tornar em uma forma de mero moralismo, elas não têm de sê-lo. Não há nada inerentemente errado em esforçar-se para crescer em piedade. Palavras como treino e disciplina não são não cristãs. Na verdade, a Escritura nos fala "treine a si mesmo para a piedade" (1 Timóteo 4.7), e Paulo falou de disciplinar seu corpo para guardá-lo sob controle (1 Coríntios 9.27). Devemos ser intencionais se queremos obedecer à exortação de Paulo à Timóteo: "foge também das paixões da mocidade; e segue a justiça, a fé, o amor, e a paz" (2 Timóteo 2.22). Este tipo de esforço é alimentado pela graça de Deus, com certeza, mas crescimento em semelhança a Cristo não acontece pelo sentar-se no sofá, esperando que um surto de alegria tome você. Isto não é como Deus planejou. Somos ordenados a "correr com paciência" à medida que olhamos para Jesus (Hebreus 12.1), e isto toma certo exercício espiritual.

3. Não trate disciplinas espirituais como uma busca de tudo ou nada

Alguns cristãos puxam o plugue [ligado] em uma disciplina espiritual simplesmente porque eles não estão alcançando seus objetivos. Eles começam um plano de leitura bíblica com entusiasmo, mas então o trabalho se torna frenético ou os prazos começam a se amontoar na escola: eles estagnam. Após falhar em alguns dias, eles tornam-se frustrados e param toda a leitura. Mas pense sobre isto: não seria melhor ler o máximo da Palavra de Deus em um ano ao invés de desistir no final de fevereiro? Lembre-se, o objetivo final não é completar um plano de leitura bíblica ou orar por quinze minutos em um dia; esses são meios para um fim. O objetivo final é crescer em seu amor por Deus. Espere contratempos temporários e recomeços ocasionais, e peça pela graça de Deus para avançar e crescer. Maturidade espiritual não é construída em um dia, ou mesmo em um ano.